Rodrigo Gasparini Franco *
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As entrevistas recentes de Manoel Gomes, cantor que ganhou notoriedade nacional com “Caneta Azul” e agora aparece no debate público como pré-candidato, expõem um retrato eloquente do momento político brasileiro: a transformação da esfera pública em vitrine de viralização, performance e ruído. Mais do que a figura individual do artista, o que chama atenção é o ambiente que torna possível, rentável e até desejável que nomes impulsionados pela lógica do entretenimento passem a ocupar espaço político com a mesma dinâmica com que antes dominavam memes, trends e cortes de internet.
O fenômeno não nasce de uma vocação cívica repentina da sociedade, mas de uma mutação na forma como a política é consumida. Em vez de programas, propostas e debate qualificado, o que frequentemente ganha tração são falas desconexas, respostas improvisadas, cenas constrangedoras e discussões estéreis. A entrevista, que deveria ser um instrumento de esclarecimento ao eleitor, muitas vezes se converte em espetáculo. O entrevistado vira personagem; o entrevistador, mediador de cliques; e o público, reduzido a uma audiência que reage mais ao absurdo do que ao conteúdo. Nesse cenário, o bizarro deixou de ser exceção e passou a funcionar como ativo de visibilidade.
A eventual entrada de Manoel Gomes na política, cercada por repercussão e curiosidade, é sintoma dessa distorção. O interesse em torno de suas declarações diz menos sobre a consistência de um projeto público e mais sobre a capacidade de atrair atenção. A fama anterior, construída fora da política, passa a ser tratada como capital eleitoral automático, como se reconhecimento popular, por si só, fosse credencial suficiente para o exercício de funções que exigem preparo, compreensão institucional, articulação e responsabilidade. A celebridade digital encurta caminhos e embaralha critérios, aproximando o palco da administração pública como se ambos obedecessem à mesma lógica.
É aí que as redes sociais desempenham papel decisivo. Seus algoritmos não premiam, em primeiro lugar, a lucidez, a profundidade ou a coerência; premiam retenção, reação, compartilhamento e choque. Quanto maior a capacidade de gerar espanto, riso, indignação ou escárnio, maior a chance de circulação. Nessa engrenagem, desconhecidos podem se tornar pop stars da mídia em poucos dias, e figuras já populares podem converter notoriedade difusa em presença política sem atravessar filtros mínimos de formação, experiência ou domínio das regras do jogo democrático. O problema não está em alguém vir de fora da política tradicional, mas em a visibilidade digital passar a valer mais do que conhecimento real sobre o sistema eleitoral, o funcionamento dos Poderes e os limites de um mandato.
A consequência é um empobrecimento deliberativo. Enquanto personagens excêntricos monopolizam a conversa pública, temas essenciais perdem espaço: orçamento, saúde, educação, transporte, segurança, transparência, reforma urbana, fiscalização do Executivo. O debate é capturado por cortes sem contexto e bordões reciclados, e a política, em vez de arena de confronto de ideias, vira sucessão de episódios vazios. O eleitor é empurrado para uma relação afetiva ou caricatural com candidatos, quando deveria ser convocado a julgar capacidade, projeto e compromisso público.
Isso não significa negar a legitimidade de candidaturas populares, nem impor um elitismo travestido de crítica. A democracia deve ser aberta e plural. Mas pluralidade não pode ser confundida com banalização. A política aceita diferenças de origem, linguagem e trajetória; o que não deveria aceitar com naturalidade é a substituição do debate por nonsense, da qualificação por fama e da cidadania por entretenimento. Quando entrevistas viram meme e memes viram plataforma, a democracia corre o risco de ser administrada como feed.
As falas de Manoel Gomes, portanto, importam menos como caso isolado e mais como sinal dos tempos. Elas mostram um país em que a atenção foi capturada pela lógica algorítmica, e em que a fronteira entre representação política e performance digital se torna cada vez mais frágil. Se a sociedade continuar premiando o barulho acima do conteúdo, a política seguirá sendo palco para o insólito. E, nesse espetáculo, quem perde não é apenas o debate público, mas o próprio eleitor, que passa a escolher entre personagens, quando deveria escolher entre projetos.
* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)

