Duda Hidalgo *
Esta semana colocou Ribeirão Preto no centro do mapa nacional em uma das discussões mais urgentes do país: até onde pode ir a publicidade das apostas on-line, as famosas bets? Entre a apresentação do Projeto de Lei nº 232/2026, de minha autoria — que altera a Lei Cidade Limpa para proibir anúncios de bets em outdoors, pontos de ônibus, equipamentos públicos e eventos patrocinados na cidade —, e as medidas anunciadas pelo prefeito Ricardo Silva, foram apenas sete dias. Mas, para quem se afundou ainda mais nas dívidas e no vício, este tempo custou muito mais caro do que se imagina. As bets não são apenas um tema grave, mas, sobretudo, urgente.
Diante disso, a resposta que construímos na política municipal foi uníssona: Ribeirão Preto não pode se tornar palco para a exploração financeira mascarada de entretenimento e diversão.
Durante muito tempo, a indústria das apostas construiu uma narrativa muito sedutora. Vendeu a ideia de que apostar em uma partida de futebol seria apenas um “teste de conhecimento esportivo”, uma extensão da paixão pelo time ou uma forma inofensiva de obter uma renda extra e “se dar bem”.
Mas a realidade da vida das pessoas não é essa: atrelada à publicidade agressiva, as bets corroem o bolso dos que menos têm, afundando os adictos em um jogo impossível de vencer. Não há diversão, mas sim endividamento, ansiedade e derretimento do orçamento familiar. Talvez por isso a população ainda tenha tanta dificuldade em manter o custo de vida, mesmo com a inflação de alimentos controlada há meses.
O que o povo conquista com o crescimento econômico, as bets buscam se apropriar com a ilusão do dinheiro fácil. Foi para conter esse avanço que apresentamos o projeto de lei: para impedir que a paisagem urbana de Ribeirão Preto se transforme em vitrine de uma atividade que lucra com a vulnerabilidade das pessoas. Crianças e jovens não devem crescer expostos ao estímulo permanente de que a vida pode melhorar com a sorte de um palpite.
Os números do Banco Central e de entidades do comércio escancaram o tamanho dessa sangria. Dezenas de bilhões de reais são drenados anualmente da economia real para as plataformas de apostas. É o dinheiro que deixa de circular na padaria do bairro, no supermercado da esquina, na loja de roupas e na farmácia. A renda que deveria movimentar o comércio local e garantir o sustento das famílias paulistas acaba nas mãos de grandes empresas de apostas.
O fato de a Prefeitura ter assumido para si a nossa bandeira, publicando um decreto no mesmo sentido, confirma a urgência de um tema que deve unificar todas as ideologias. Não se trata mais de posições partidárias, mas de uma unidade em torno da proteção social, da saúde pública e da defesa da economia local, já atingida pelas taxas e tarifas irresponsáveis daqueles que batem continência para a bandeira de outros países. Quando o Legislativo coloca o tema em debate e o Executivo se movimenta, quem ganha é a população.
Proteger nossa cidade do bombardeio publicitário das bets é defender o bolso do trabalhador, a saúde mental da nossa gente e, principalmente, as famílias de Ribeirão Preto e de todo o interior paulista. Em nossas ruas devem ser vistas a publicidade do bem, a informação pública e a propaganda da vida — não um cassino a céu aberto.
Ribeirão Preto assume um papel pioneiro no Estado de São Paulo ao mostrar que o município tem, sim, capacidade de voltar a ser a vanguarda do progressismo e do humanismo nas políticas públicas. É nisso que podemos, devemos e vamos continuar apostando. Essa sim, uma aposta que vale a pena!
* Vereadora em Ribeirão Preto pelo PT

