Tribuna Ribeirão
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Emergência Radioativa

Rui Flávio Chúfalo Guião *
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A Netflix está disponibilizando interessante série, Emergência Radioativa, versão romanceada do acidente nuclear ocorrido em Goiânia, no ano de 1987. Nesta data, catadores de lixo descobriram, numa clínica radiológica abandonada e semidestruída, um aparelho que levaram para casa, abriram, dividiram-no em duas partes e as venderam para um comerciante de ferro velho.

Ao final do expediente, o comerciante percebeu que um reflexo verde emanava de uma das partes, levou-a para casa, onde ficou em cima da mesa de jantar por dez dias, atraindo a atenção da família e dos amigos. Como tinha aspecto de uma marmita, assim passou a ser chamada a descoberta.

O comerciante conseguiu mesmo desatarraxar um pequeno bocal, de onde caiu uma chuva de material brilhante, quando se apagava a luz.

Foi um sucesso: os pequenos grãos passavam de mão em mão, eram espalhados nos braços, davam uma visão de fantasia ao fenômeno.

Para os mais íntimos, o comerciante presenteou pequenas porções do pó mágico.

Entretanto, inexplicavelmente, os que tiveram contato com a maravilha começaram a ficar doentes: dor de cabeça, vômitos, diarreias. Creditavam a umas coxinhas comidas o mal-estar geral.

Preocupada com a situação, a esposa do comerciante toma um ônibus e vai a uma Unidade Básica de Saúde levando a marmita, mas, não lhe dão a atenção devida e a fonte radioativa fica largada numa cadeira no pátio da instalação.

Na mesma época, um físico nuclear recém formado está em visita a seu pai aniversariante e um colega médico entra em contato com ele, pois suspeita de contaminação radioativa os sintomas da mulher que foi à UBS.

Começa então a epopeia. Notificada, a Agência Nacional de Energia Atômica – ANEA, envia do Rio, um dos seus físicos, por sorte um excelente profissional, que logo intui a extensão do problema.

Convencer as autoridades, inclusive o Governador do Estado, é trabalho insano. Não querem se conscientizar do tamanho do problema.

Mesmo assim, é feita uma instalação provisória no estádio de futebol, onde são internados os que tiveram contato com o césio, bem como é avaliada a população que para ali se dirige a fim de ver se foi contaminada ou não.

Sabedor que a esposa do comerciante foi à UBS de ônibus, inicia-se uma caça ao coletivo e às pessoas que com ela viajaram. Descobre-se o veículo, que está radioativo. A imprensa logo anuncia “Onibus radioativo circula pela cidade” Instala-se um início de caos.

Suspeita-se de que a água que abastece Goiânia poderia ter sido contaminada, o que levaria à evacuação de todos os habitantes, hipótese que não se confirma.

Finalmente, devido à dedicação dos dois físicos nucleares e dos outros dois médicos enviados do Rio, controla-se a situação. Quarteirões são isolados, casas destruídas.

Surge outro problema: por orientação da ANEA, os resíduos decorrentes  das descontaminações são colocados em tambores de chumbo, que precisam ser enterrados. O Governador decide que eles não poderão ficar em Goiás, outros estados se recusam a recebê-los. Finalmente, o Congresso e o Presidente da República interferem e o material tem de ser enterrado no estado de Goiás.

Vencidas as resistências dos moradores da região escolhida, a carga radioativa é enfim coberta com mantos de chumbo e concreto e até hoje permanece segura, sem traços de contaminação.

Ao fim e ao cabo, vinte pessoas morreram e o desastre de Goiânia é considerado o maior do mundo não decorrente de falhas de reator atômico.

Legislações mais severas e abrangentes começaram a ser feitas para que não se repetisse a tragédia goiana.

A série vale pela reconstituição histórica e pela performance dos artistas.

* Advogado e empresário, é presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e Motos e secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

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