Antonio Carlos A. Gama *
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A ficção é uma mentira? O bom escritor há de ser um bom mentiroso?
E podemos ir mais adiante: a arte, em geral, é uma mentira?
Fiquemos com a pintura. Não importa a escola, clássica, realista, romântica, impressionista, expressionista, surrealista, abstrata, ou qualquer outra. O que o pintor nos exibe na tela, por mais minucioso ou distorcido, é uma mentira, já que se trata de mera reprodução ou representação de uma realidade, externa ou interna?Vejam as célebres obras de Magritte “Isto não é um cachimbo” e “Isto não é uma maçã”.
Segundo os Evangelhos, ao interrogar o Cristo, Pilatos teria indagado: “O que é a verdade?”, e sem obter a resposta, voltou-se aos acusadores e lhes disse: “Eu não acho nele crime algum.” Se isso era verdade, mesmo assim lavou as mãos e permitiu que ele fosse condenado e crucificado.Na pergunta de Pilatos, entretanto, está o seu contrário também: “O que é a mentira?”
Voltando à literatura, quais os limites da realidade (ou do que entendemos como tal) e da ficção? Qual a diferença entre pessoas que conhecemos ao longo de nossa vida e as personagens com que convivemos nos livros (e também na vida)?
Como é sabido, e qualquer dicionário explica, “pessoa” e “personagem” derivam do latim “persona”, que era a antiga máscara de teatro utilizada pelos atores em cena para projetar suas vozes. Assim, pelo menos do ponto de vista etimológico, não haveria diferença substancial entre uma e outra. Jung utilizou-se do vocábulo “persona” para qualificar a personalidade que o indivíduo apresenta aos outros (e, muito provavelmente, para si mesmo) como real, mas que na verdade seria uma variante muito diferente da verdadeira.
Será correto, então, afirmar que o chamado “mundo real” e suas “pessoas” diferem ou existem de modo mais efetivo e substancial do que o “mundo literário e suas “personagens”?
Quem é mais real e verdadeiro, Fernando Pessoa, ele mesmo, ou “Alberto Caeiro”, “Álvaro de Campos”, “Ricardo Reis”, “Bernardo Soares”?
Quem terá marcado mais fortemente a nossa existência ou a construção da nossa “persona” junguiana: nossos pais, irmãos, amigos de infância e da vida adulta, amantes, aquelas inúmeras outras pessoas sem rosto que perpassaram nossa trajetória, ou aquelas personagens que nos encantam, comovem e acompanham, como “O Pai Goriot”, “Irmãos Karamázov”, “David Copperfield”, “Pedrinho” e “Narizinho”, “Os Três Mosqueteiros” e “D’Artagnan”, “Mersault”, “Jacinto” e “Zé Fernandes”, “Brás Cubas”, “Quincas Borba”, “Capitu”, “Ana Karênina”, “Madame Bovary “(“c’est moi”), cujos rostos que supomos não saem nunca da nossa lembrança?
Quem mais nos fascina, emociona, atemoriza ou é mais relevante em nossa vida: os animais e as feras que vemos nas ruas e nos campos, enjaulados no zoológico, ou os “Bichos” de Miguel Torga, “Moby Dick”, “King Kong”, a cadela “Baleia”, o burrinho pedrês “Sete-de Ouros”?
É possível conceber a vida e o homem sem “Hamlet”, “Otelo”, “Macbeth”, “Don Quixote” e “Sancho Pança”?
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

