Rodrigo Gasparini Franco *
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Paris e os grandes centros urbanos franceses amanheceram sob um rastro de cinzas, vitrines estilhaçadas e calçadas tomadas por escombros após a marcha de 17 de outubro. O que fora anunciado como um protesto contra o arrocho econômico descambou em poucas horas para um cenário desolador de guerrilha urbana, pautado pela coreografia destrutiva dos grupos black blocs. Agindo em blocos compactos, encapuzados e armados com pedras e coquetéis molotov, esses extremistas tomaram a vanguarda do cortejo e transformaram avenidas comerciais em praças de guerra, depredando fachadas bancárias, incendiando veículos e saqueando estoques inteiros diante de um aparato estatal que assistia, estarrecido, ao colapso momentâneo da ordem.
A violência desatada naquele dia, contudo, nada mais é do que o capítulo mais recente de uma fratura social que se arrasta há anos. A insatisfação começou a germinar nas ocupações estudantis que contestavam reformas estruturais, ganhou musculatura nas barricadas dos gilets jaunes inflamados pelo preço proibitivo do diesel e, desde então, cristalizou-se em revolta cotidiana. O aumento vertiginoso do custo de vida, a perda contínua do poder aquisitivo e o peso esmagador de uma dívida pública que asfixia as contas da República criaram um caldo de desesperança, no qual uma parcela considerável da população passou a encarar o Estado não mais como protetor, mas como fonte perene de extorsão e descaso.
Foi nesse ambiente de exaustão que Jean-Luc Mélenchon e seu partido, a França Insubmissa (LFI), encontraram solo fértil para inflamar os ânimos. Longe de exercer um papel pacificador, o partido tem operado como megafone das tensões, convocando greves contínuas e legitimando a revolta popular sob a bandeira da insurreição cívica. Ao hesitar sistematicamente em condenar as depredações e transferir toda a culpa moral para o Palácio do Eliseu, a esquerda radical alimenta a espiral de hostilidades, acirrando o ressentimento de trabalhadores e pequenos empreendedores que se sentem encurralados pela fúria ideológica.
O clima que hoje paira sobre a França parece decalcar as páginas proféticas de Submissão, célebre romance distópico de Michel Houellebecq. Na narrativa, a sociedade francesa surge imersa em um cansaço existencial profundo, assistindo paralisada à desintegração lenta do pacto civil, aos confrontos diários na periferia e à indiferença das elites burocráticas, até que o vazio de autoridade abra caminho para a derrocada definitiva da República.
A realidade recente parece reproduzir essa decadência moral e material: cresce a percepção de que as pontes democráticas se romperam e de que a desordem passou a dominar o debate público. Nas ruas, essa sensação se traduz em prejuízos concretos. Com a fumaça das barricadas ainda no ar e sem policiamento preventivo suficiente para proteger os estabelecimentos, muitos lojistas foram levados a buscar, por conta própria, formas de defender seus negócios.
Sem poder contar com a tutela estatal, pequenos comerciantes começaram a adquirir armas, organizar redes de vigilância particular e até mesmo contratar integrantes de grupos ultras para guarnecer entradas e depósitos contra novos saques. Essa privatização da segurança, sintoma definitivo da fragilidade institucional, pavimenta um caminho eleitoral claro: em meio ao medo e à sensação de anarquia, Marine Le Pen firma-se como a única liderança que sai amplamente fortalecida desse episódio, consolidando sua vantagem rumo à eleição presidencial de 2027 ao encarnar a promessa de restauração implacável da ordem após a violência generalizada.
* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)

