Tribuna Ribeirão
Artigos

Instrumentos farmacológicos promissores no tratamento do Autismo

Rosemary Conceição dos Santos*

 

As enzimas, conhecidas como catalisadores biológicos, elementos que aceleram reações químicas essenciais ao reduzir a energia de ativação necessária para um processo ocorrer, são cruciais para a digestão, produção de energia e replicação celular. Especificamente, as enzimas PDEs são cruciais para regular a inflamação, a circulação sanguínea e o relaxamento muscular e, uma vez bloqueadas, permitem efeitos terapêuticos em determinadas doenças.

Destacar o potencial dos inibidores das enzimas PDEs, específicas em determinados neurônios envolvidos na mediação de comportamentos repetitivos associados ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), como instrumentos farmacológicos promissores no caminho terapêutico desse transtorno, e de outras doenças neurológicas de amplo espectro, é objetivo de uma pesquisa realizada pelo Prof. Dr. Fernando Eduardo Padovan Neto na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, no Campus de Ribeirão Preto.

O TEA é uma condição do processo contínuo de crescimento e organização do sistema nervoso que afeta a forma como a pessoa percebe o mundo, processa informações, comunica-se e interage socialmente. Uma vez ocorrido no ser humano, desencadeia dificuldades de coordenação, equilíbrio e movimento, como, por exemplo, em sentar, andar e segurar objetos, bem como na capacidade de aprender, lembrar, raciocinar e resolver problemas, incluindo dificuldades em entender e expressar ideias, sons, palavras e de interagir com outras pessoas, reconhecer sentimentos e ter empatia. Esse quadro, geralmente diagnosticado na infância, coincide também com condições psiquiátricas, como o transtorno do déficit de atenção e a hiperatividade, ansiedade e irritabilidade no indivíduo, sendo o termo “espectro” utilizado porque os sintomas e a intensidade variam amplamente de indivíduo para indivíduo.

Neste contexto, moléculas orgânicas chamadas de nucleotídeos cíclicos, amplamente distribuídas na maioria dos tipos de células por todo o encéfalo, atuam como segundos mensageiros na sinalização celular, convertendo sinais neurais em respostas funcionais, modulando de maneira eficaz a atividade neuronal. Dada a atual falta de tratamentos específicos para o TEA, as descobertas atuais destacam o potencial dos inibidores de enzimas PDEs num horizonte de tratamentos farmacológicos dominado por antipsicóticos e outras abordagens farmacológicas que enfrentam desafios significativos relacionados à adesão do tratamento, potenciais interações medicamentosas e efeitos colaterais.

Entretanto, apesar dos avanços na compreensão dos circuitos neurais associados ao TEA, ainda não foram definidos biomarcadores diagnósticos eficazes ou tratamentos específicos para o mesmo. A pesquisa “Inibição da fosfodiesterase 10A e sua influência nos comportamentos repetitivos e na via córtico-estriatal em um modelo animal de transtorno do espectro autista induzido por ácido valpróico”, desenvolvida por Padovan Neto, e apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pretende estabelecer que a inibição da PDE10A é uma ferramenta farmacológica valiosa para modular, e potencialmente corrigir, circuitos disfuncionais estriatais relacionados aos comportamentos do tipo repetitivos do TEA. Esses resultados certamente contribuirão para o avanço do conhecimento sobre os mecanismos de ação relacionados ao TEA, bem como para uma melhor compreensão da neurofisiologia estriatal, auxiliando na busca por novos alvos terapêuticos para os sintomas associados ao TEA.

 

USP/FAPESP*

VEJA TAMBÉM

Infância sem proteção

Redação

No mundo das suculentas…

Redação

Psicologia e Neurociência (11): A Face do Tempo

Redação

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade. Aceitar Política de Privacidade

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com