Antonio Carlos Augusto Gama *
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“Todo o tempo que eu viver
Só me fascina você, Mangueira
Guerreei na juventude
Fiz por você o que pude, Mangueira
Continuam nossas lutas
Podam-se os galhos, colhem-se as frutas
E outra vez se semeia
E no fim desse labor
Surge outro compositor
Com o mesmo sangue na veia
Sonhava desde menino
Tinha o desejo felino
De contar toda a tua história
Este sonho realizei
Um dia a lira empunhei
E cantei todas tuas glórias
Perdoa-me a comparação
Mas fiz uma transfusão
Eis que Jesus me ‘premeia’
Surge outro compositor
Jovem de grande valor
Com o mesmo sangue na veia.”
Fundador da Mangueira, Mestre Cartola, no alto de sua majestade, expõe, em “Fiz por você o que pude”, duas de suas fraquezas: o amor pela Estação Primeira, de onde Cartola andara afastado por uns tempos, e sua preocupação em fazer um sucessor, em manter viva sua linhagem no samba.
Essa canção teria sido dedicada a Nelson Sargento, filho adotivo de Alfredo Português, também fundador da Mangueira, pai e filho parceiros de Cartola.
Com visão de um verdadeiro estrategista, Cartola via em Sargento potencial para se tornar seu príncipe herdeiro. Afinal, tinha lhe ensinado os primeiros acordes do violão, quando Sargento tinha 12 anos e ainda galgava as primeiras patentes.
E o Mestre tinha razão. “Surge outro compositor com mesmo sangue na veia”. Anos depois, Nelson Sargento tranquilizaria Cartola, ao proclamar que “o samba agoniza, mas não morre”.
O que há de mais curioso, contudo, em “Fiz por você o que pude”, evidencia a humildade de Cartola.
Quando o samba foi lançado, alguns críticos, súditos infiéis, incomodados com as conquistas do samba de Cartola mundo afora, logo apontaram os dedinhos indignados para um “erro” de português que saltava aos olhos: “Eis que Jesus me premeia”.
É impressionante como algumas pessoas – e essa me parece uma característica típica da maioria dos críticos – têm a capacidade de apontar a lua e só enxergar o próprio dedo.
Pronto. Estava demonstrado que, apesar se sua aparente erudição, Mestre Cartola, por sua origem muito humilde e sua formação acadêmica frágil – estudou, apenas, até a quarta série do primário – não dominava os segredos do vernáculo.
Ao ouvir as críticas, Cartola ficou cabisbaixo e passou até a evitar de cantar o samba, mas entre amigos, confessou a razão de seu suposto equívoco. No momento da composição, ficou em dúvida, mas leu, nos sermões de Padre Antônio Vieira: ‘Assim castiga, ou premeia Deus’.
Sim, Cartola lia Vieira, o que talvez os seus críticos nunca o fizeram. Cartola poderia até ser acusado de plagiar Padre Vieira, mas não de ignorância. Afinal, em arte popular, a majestade também se faz na humildade.
Erro? Pois o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, veio dar razão a Cartola! Embora pouco usada no Brasil, a forma “premeia” existe em outros países da comunidade lusófona. A partir do acordo, são válidas as formas “negocio ou negoceio” (de negócio),” noticio ou noticeio” (de notícia), ‘calunio ou caluneio” (de calúnia) e “premio ou premeio” (de prêmio).
Para que se interessar, aqui está o link da canção: https://youtu.be/vQQ2eebwhGI?si=GxA69oKwF7puXEs1
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

