Taís Roxo Fonseca *
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Há filmes para distrair e outros para entrar na alma da gente para todo o sempre, esses são capazes de descrever em pouco tempo a estrutura social, política e jurídica de um país. O Agente Secreto pertence a essa última categoria, ele não é apenas um filme, é um gesto político podendo dizer ainda que, é um poema contra o esquecimento.
Quando nosso baiano Wagner Moura, recebeu o Globo de Ouro pela sua atuação no filme, o prêmio ultrapassou o homem artista e se tornou uma premiação coletiva de um País sofrido que continua encalhado em seu passado preconceituoso, racista e autoritário.
O Brasil precisa urgente repensar e recontar a sua história. Wagner Moura carrega no corpo, e quem já o viu dançar sabe disso, a densidade de um Brasil real. A imprensa de Salvador gravou uma entrevista com o Wagner Moura ainda com uns 10 aninhos de idade, quando sua família estava sendo despejada da favela e ele pequenino e com o mesmo sorriso maroto de hoje, disse ao repórter que gostaria de permanecer morando na favela, porque ali era o lugar dos seus amigos.
Quantos anos se passaram daquela entrevista do menino Wagner e o Brasil continua igual, escondendo sua história de golpes e autoritarismo debaixo do tapete. A imensa maioria de brasileiros passa a vida trabalhando e morre sem conquistar o direito de ter uma casa própria.
Não surpreende que essas narrativas como a do filme O Agente Secreto incomode, a arte que revela verdades comumente provoca reações e Wagner Moura, apesar do reconhecimento internacional vem sofrendo ataques preconceituosos nas redes sociais, ataques que não são casuais, ele é nordestino, baiano e filho de pai negro. O incomodo não é pela sua atuação mas pelo o que ele simboliza.
O preconceito brasileiro não atua somente por gritos, ele opera também na tentativa de deslegitimar e expulsar certos corpos do cenário e do protagonismo cultural. Esses filmes e premiações internacionais estão nos convidando para repensarmos o Brasil para além do modelo econômico excludente, por uma economia social e de interesse público.
A economia solidária propõe um caminho de cooperação em vez de exploração, trabalho com dignidade e riqueza com função social. Celebrar o filme do Wagner Moura é mais do que celebrar o cinema, é afirmar que o Brasil precisa narrar sua história com coragem e verdade. É defender a nossa arte como memória viva, a educação como a base da democracia e a economia solidária como um horizonte ético.
O Brasil só sairá do encalhe do passado quando olhar para si, sem filtros coloniais, sem medo da própria diversidade, sem ódio à própria imagem e origem. E muitas vezes esse olhar começa no escurinho do cinema ou na luz silenciosa de um livro nas mãos de uma criança.( frase roubada do Ziraldo).
Nesta quinta-feira próxima, dia 22 de janeiro, o Cauim realizará o relançamento do filme O Agente Secreto às 19 horas à 10 reais o ingresso. É para levar os amigos, os vizinhos, o colega de trabalho, o Cauim é o nosso segundo lar e estará nos aguardando com um sorriso sincero e uma pipoca quentinha. Sabe aquele cinema com verdadeiro charme, cheiro e gosto de cinema, isso mesmo, é so lá.
* Advogada

