Por Hugo Luque
A sala de musculação tem deixado de ser um espaço frequentado apenas por quem busca fins estéticos ou rendimento esportivo. A busca pela saúde mental também tem conquistado seu espaço nas academias com a prática regular de exercícios com carga cada vez mais consolidada como uma das ferramentas mais acessíveis e eficientes para a regulação emocional.
A ansiedade, a depressão e o estresse do mundo cada vez mais acelerado são combatidos pelo simples ato de fortalecer a musculatura ao erguer halteres, barras e anilhas. Entender esse impacto exige olhar para o corpo e para a mente como uma engrenagem única.
Do ponto de vista neurológico, o movimento físico desencadeia reações químicas capazes de alterar a percepção de humor e disposição. No âmbito comportamental, a construção de uma rotina estruturada e o acompanhamento das próprias conquistas impactam positivamente na autoconfiança.
A sensação de alívio e, muitas vezes, bom humor logo após o treino não é mero acaso. É fruto de uma resposta fisiológica do organismo ao esforço físico. O psicólogo clínico e do esporte Igor Bonfim destaca que a musculação atua ativamente na regulação hormonal e na redução de marcadores do estresse, como o cortisol.
“A gente tem a questão fisiológica atrelada a tudo isso. Há alguns hormônios que influenciam diretamente no grau e na intensidade de ansiedade que o indivíduo vai sentir, assim como também a depressão. A musculação, de algum modo, tem total impacto no cérebro, fazendo com que os níveis de ansiedade e depressão diminuam. Temos a serotonina, que vem para o nosso corpo e é produzida no nosso cérebro com determinadas situações”, explica o psicólogo. Ele ainda reforça que o benefício promovido pela atividade não exige cargas de atletas profissionais.
“A gente pode se basear numa prática regular de musculação de um indivíduo comum que está buscando a melhoria da sua qualidade de vida, não falando de atletas de powerlifting. A prática regular tem uma relação totalmente direta com a questão dos níveis de ansiedade e de depressão. O estudo que me baseio mostram como essas variáveis vão diminuindo, sejam elas fisiológicas ou a percepção subjetiva em relação àquilo que o praticante está sentindo”, pontua Bonfim ao referenciar uma pesquisa de 2023 que destaca a importância de treino com peso para pessoas com ansiedade e/ou depressão.
Alegria de evoluir
Além dos estímulos químicos, a musculação oferece um ambiente prático de metas. O cotidiano já apresenta muitos desafios abstratos. Assim, o ato de levantar um peso a mais ou completar uma repetição que antes parecia impossível entrega uma resposta imediata de capacidade tão necessária.

Na rotina da sala de musculação, esse processo reflete diretamente no comportamento dos praticantes. O profissional de educação física Cássio Mercaldi Fochi acompanha de perto essa mudança de postura em seus alunos.
“No começo, o aluno costuma chegar mais inseguro e até duvidando da própria capacidade. Quando ele percebe que está levantando mais peso, conseguindo fazer mais repetições ou terminando o treino com mais facilidade, a confiança aumenta bastante. Ele passa a chegar mais animado, mais disposto e até a postura muda. A pessoa começa a acreditar mais no próprio potencial porque vê na prática que está evoluindo, e isso acaba refletindo também fora da academia”, relata o personal trainer.
Para Igor Bonfim, esse acompanhamento visual e prático fortalece a autoimagem, mas exige o cuidado de não focar unicamente no espelho, o que pode se tornar uma armadilha para a autoestima. “A gente pode fazer o acompanhamento com as medidas antropométricas, como dobra cutânea ou IMC. O feedback, por meio de uma outra pessoa, um professor ou quem está vendo o processo, é muito importante. Nós, como seres humanos, analisamos as questões de uma forma muito negativa, então o feedback é uma variável da psicologia do esporte muito importante para que a gente tenha autoconsciência e motivação”, afirma o psicólogo.
Nos momentos em que o meio externo parece caótico ou desgastante, a estrutura de um treino atua como um ponto de estabilidade: basta sentar no aparelho e seguir a lista pré-determinada de exercícios, sempre com foco na execução correta e no momento presente. Por isso, criar o hábito de ir à academia oferece previsibilidade e a sensação de que o indivíduo está no controle de ao menos uma parte do seu dia.
A consistência, contudo, esbarra com frequência na falta de motivação – especialmente após dias intensos de trabalho. Nesses cenários, a estratégia está em simplificar o início da tarefa.
“Costuma ser mais uma questão mental do que física, então começo falando que vou deixar o treino mais fácil, deixo ele confortável, começo com um aquecimento leve e, quando ele vê, já está treinando normalmente”, conta Fochi, que relaciona o “combo” de compromisso e ambiente seguro à adesão do aluno.
“Primeiramente, pelo fato de ter um compromisso firmado já reduz muito a falta da pessoa porque ela sabe que eu estarei esperando. Depois, estabelecer uma relação de confiança faz com que a pessoa se sinta confortável naquele espaço e queira continuar o treino. É importante deixar claro que tudo é uma progressão, e que mesmo que num dia cansativo ela não renda 100%, manter a consistência ainda é mais importante e melhor do que não ir”, orienta.
O primeiro passo
Embora os benefícios da musculação sejam amplamente reconhecidos, a decisão de começar ainda representa um grande obstáculo para muitas pessoas. A timidez, o receio de ser julgado ou o desânimo de entrar em um ambiente desconhecido para gastar energia e suar costumam adiar o início, mesmo quando a academia está geograficamente próxima.
“Percebo que a principal dificuldade é a vergonha das pessoas de se sentirem observadas, além do medo da aula ser muito difícil e ela não conseguir fazer. Eu tento criar laços de confiança com os meus alunos para que eles se sintam à vontade, explicando como funciona o treinamento e passando segurança no momento de executar os exercícios. No começo pode parecer difícil, mas tudo é adaptado para a pessoa”, explica o educador físico, que atende em academias de condomínios.

Sob a perspectiva da psicologia, a orientação para vencer o bloqueio inicial é focar em pequenas metas diárias e respeitar os limites individuais.
“A dica que eu daria é: comece de baixo. De grão em grão a galinha enche o papo. Não precisa encher o papo de uma vez, porque às vezes a gente não tem um papo tão bom para receber tanto milho. Respeite o processo. Faça o simples bem-feito, o famoso feijão com arroz. Quer fazer musculação? Comece de baixo, com o simples. Faça uma atividade em casa, pegue um litro de leite e faz ali um bíceps, faz um agachamento sem peso e comece a ver a melhora de forma única. Só você sabe como foi difícil todo o processo, então glorifique cada atitude que você tem”, destaca Bonfim, que destaca a importância de encarar a prática como um cuidado contínuo e integrado a outros hábitos da rotina.
“O sentimento positivo de dever não deveria ser algo que a gente tem de ficar todo dia anotando, tem de ser um hábito de vida. Se você treina, você tem fome. Se você come, você tem sono. Quando você dorme, libera todo o cortisol que você tem na sua cabeça e, no dia seguinte, se sente mais forte, mais bonito ao olhar no espelho. É todo um processo onde todas as funções e atividades pequenas são importantes para a construção de um todo”, conclui.

