Maurílio Biagi Filho n*
Há algo profundamente errado em Ribeirão Preto. E talvez o mais grave seja que muita gente ainda não tenha percebido ou tenha preferido não perceber. A cidade que ostenta hospitais e medicina de excelência, universidades respeitadas, agronegócio bilionário, tecnologia, pesquisa, riqueza e protagonismo nacional está fracassando justamente naquilo que define o futuro de qualquer sociedade: a educação básica pública.
Chegamos aos 170 anos celebrando títulos, rankings e indicadores positivos de qualidade de vida. Em levantamento recente do IPS (Índice de Progresso Social), apareceu entre as melhores do Brasil para se viver entre os municípios com mais de 500 mil habitantes, atrás apenas de Curitiba entre todas as capitais e grandes cidades avaliadas.
O orgulho é legítimo. Ribeirão construiu uma história admirável baseada em trabalho, empreendedorismo, inovação e capacidade de transformação. Tornou-se referência nacional em saúde, ciência, tecnologia, agronegócio e formação profissional. Mas justamente por conhecermos o potencial da cidade, é impossível deixar passar esta data tão simbólica sem chamar atenção para um problema sério, urgente e que precisa mobilizar toda a sociedade. Que qualidade de vida é essa quando milhares de crianças não conseguem aprender português e matemática no nível mínimo esperado?
A pergunta é incômoda, mas os dados são irrefutáveis. Existe um abismo escondido atrás dos prédios modernos, dos condomínios fechados, dos congressos médicos, das feiras de agronegócio e dos discursos otimistas sobre desenvolvimento. Porque enquanto uma parte da cidade prospera, outra está sendo silenciosamente desamparada dentro das salas de aula.
O contraste se torna ainda mais cruel quando se observa a realidade do ensino privado da cidade. Ribeirão Preto abriga algumas das escolas mais sofisticadas do país, com estruturas de primeiro mundo, metodologias importadas, tecnologias estrangeiras, ensino bilíngue, intercâmbios internacionais e mensalidades altíssimas. Enquanto uma parcela dos jovens tem acesso ao que existe de mais moderno na educação global, milhares de crianças da rede pública ainda lutam para alcançar competências básicas de alfabetização.
O jornalista Cristiano Pavini, por meio de levantamentos, análises e estudos publicados pelo portal Farolete, pelo Instituto Ribeirão 2030 e repercutidos inclusive pelo Jornal da USP, vem há anos alertando para o agravamento dos nossos indicadores educacionais. Os números são alarmantes e incompatíveis com a grandeza de Ribeirão Preto.Apesar de me recusar a acreditar nisso, as estatísticas mostram com clareza e falam por si só.
No Indicador Criança Alfabetizada, a rede municipal registrou em 2025 um dos piores desempenhos do estado de São Paulo. No Saresp, Ribeirão despencou para posições constrangedoras em português e matemática entre centenas de municípios paulistas. Milhares de jovens chegam ao Ensino Médio carregando defasagens enormes. Muitos entram praticamente condenados a disputar a vida em desigualdade permanente.
E aqui está a pergunta que deveria constranger toda a cidade: como Ribeirão Preto consegue formar médicos, pesquisadores, empresários e cientistas reconhecidos internacionalmente, mas falha em ensinar uma criança a ler, interpretar um texto e resolver operações básicas? Isso não é apenas um problema administrativo. É um colapso social em câmera lenta.
Porque nenhuma cidade permanece rica, forte ou desenvolvida quando abandona sua base educacional. Não existe potência econômica sustentada sobre analfabetismo funcional. Não existe futuro competitivo quando parte da juventude cresce sem acesso mínimo ao conhecimento.
Talvez a maior contradição de Ribeirão Preto esteja justamente aí: a cidade admira seus títulos de excelência enquanto ignora a deterioração silenciosa da educação pública municipal. E essa enfermidade não começou agora. Desde 2011, os indicadores globais do IDEB apresentam estagnação ou retrocesso na rede municipal. Trata-se de um problema estrutural que atravessou governos, discursos, gestões e promessas.
A verdade é dura: Ribeirão Preto está produzindo uma geração inteira de crianças e adolescentes que talvez jamais consigam alcançar o próprio potencial porque o sistema falhou com elas. E quando uma cidade falha com suas crianças, ela falha consigo mesma.
E Ribeirão possui praticamente tudo aquilo que outras cidades gostariam de ter: universidades fortes, pesquisadores, arrecadação relevante, capital humano qualificado, influência política e capacidade técnica. Falta menos estrutura do que coragem. Coragem para admitir que a situação saiu do aceitável. Coragem para abandonar medidas superficiais e meramente midiáticas. Coragem para transformar educação em prioridade absoluta e permanente.
Talvez tenha chegado o momento de Ribeirão Preto reconhecer aquilo que muita gente evita dizer em voz alta: a educação básica pública está na UTI, respirando por aparelhos.
Esse problema não pertence apenas ao prefeito Ricardo Silva, à Secretaria da Educação ou aos professores. Pertence à cidade inteira. Pertence ao setor empresarial que reclama da falta de mão de obra qualificada. Pertence às universidades, que precisam se aproximar mais da rede básica. Pertence às famílias, às entidades de classe, às igrejas, à Câmara Municipal, à defensoria pública, enfim, à sociedade…
Claro que reconhecemos os muitos motivos para comemorar os 170 anos do município, que possui relevância regional e nacional, mas entendemos que amor verdadeiro por uma cidade também significa reconhecer seus problemas com honestidade e responsabilidade. Por isso, é necessária esta reflexão.
Mas também nesse aniversário temos que cumprimentar todos os ribeirão-pretanos que ajudaram, e ajudam, a construir a força econômica, social e humana desta cidade extraordinária. Cumprimentarmos carinhosamente também o nosso atual prefeito Ricardo Silva, que talvez tenha diante de si uma das missões mais difíceis e transformadoras da história recente da nossa cidade. Além do legado quejá está construindo,sua gestão pode ser marcada por uma reviravolta épica na educação básica…é jovem e inteligente!
Temos a plena consciência de que educação é um setor complexo, desafiador e cercado de obstáculos. Muitos outros governantes já tentaram avançar nessa área e encontraram limitações, resistências e enormes dificuldades. Mas toda grande transformação começa justamente quando alguém decide enfrentar aquilo que parece impossível.
Existe uma frase popular que diz que, quando se está na lanterna, não há mais como cair: só resta começar a subir. E talvez esse seja o momento de Ribeirão Preto encarar a realidade. Pior do que está, dificilmente pode ficar.
Toda crise gera oportunidade. E talvez a maior oportunidade desta cidade esteja exatamente em promover uma verdadeira revolução na educação básica pública. Mas isso exigirá prioridade absoluta, coragem política, mobilização social, determinação e disposição para enfrentar desgastes inevitáveis. Toda mudança séria provoca desconforto e inevitavelmente descontenta muita gente. Toda ruptura com modelos antigos gera resistência.
Os próximos 170 anos de Ribeirão Preto não serão decididos apenas pelo agronegócio, pela medicina, pela tecnologia ou pelo empreendedorismo. Serão decididos dentro das salas de aula. E a pergunta que fica é inevitável: Ribeirão Preto terá coragem de encarar essa verdade agora ou continuará empurrando com a barriga enquanto o futuro fica comprometido diante de seus olhos? E tem uma outra pergunta importante, como uma cidade que tem um índice de qualidade de vida tão alto pode ter ainda 100 comunidades, popularmente conhecidas como favelas, com condições precárias de sobrevivência? Mas este é um assunto para um próximo artigo.
* Empresário

