Sérgio Roxo da Fonseca *
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A imprensa atual oferece um retrato negativo da tão brava e leal cidade de São Sebastião de Ribeirão Preto, referindo-se ao abandono do Bosque Municipal, da Avenida Nove de Julho, da Avenida Francisco Junqueira como também do Hotel Brasil. Era o panorama da metade do século XX, quando então morávamos na terceira maior cidade do Estado de São Paulo, com o afastamento de sua capital: Santos,Campinas e Ribeirão Preto.
Com certeza porque, nos dias de hoje, interesses que regem a comunidade exigem uma dinâmica reconstruída, indicando que a fisionomia urbana da cidade reflete interesses diversos.Tem hoje um pouco mais de 730.000 habitantes, figurando em oitavo lugar.
Antes havia poucos automóveis que hoje transitam noite e dia por toda parte; as ruas eram calçadas com paralelepípedos, hoje com asfalto; antigamente os quarteirões eram quadrados, definindo zonas comerciais e residenciais; os homens só saiam de casa de chapéu e suas esposas com meias transparentes; as mercadorias eram transportadas por carroças puxadas por cavalos, hoje acomodadas em caminhões.
O Bosque Municipal atraia um grande número de crianças e de jovens. Era todo coberto por árvores que ainda hoje apontam para o céu. O seu habitante mais famoso era uma onça que, segundo diziam, havia figurado num filme de “cangaço”.
O Hotel Brasil não podia ser vendido e nem mesmo demolido porque o presidente da República Getúlio Vargas, mesmo quando era ditador, havia passado ali uma noite, conforme a lição do Professor Divo Marino. Hoje o prédio envelheceu.
Havia, aqui e ali, havia preconceito racial, especialmente contra os negros. Mas o racismo atingia também os alemães, os italianos e até mesmo os japoneses contra os quais as tropas brasileiras haviam lutado durante a II Guerra Mundial.
No retrato da época poderia figurar a imagem da professora Alice Garcia que era negra. As famílias exerciam todo o seu poder político para matricular seus filhos na classe dirigida pela negra Alice Garcia, tendo em conta ter ela, entre outras virtudes, uma insuperável força de trabalho. A professora residia na Rua Marcondes Salgados 675. Mereceria uma estátua para perpetuar a sua notável história.
As únicas escolas universitárias eram o “Moura Lacerda”, localizado até então na Praça XV, como antes referido, e, a Faculdade de Odontologia e Farmácia, a FOF, instalada ao lado do jardim da Catedral.
O aeroporto de Ribeirão Preto, até na metade do século XX era o maior do interior do Brasil. Alguns jovens daquele tempo “tiravam o brevet” em substituição do serviço militar. Se bem lembro o pequeno avião mais procurado era o HFI,ou seja, o Hotel, Fox, Índia.As ruas e as praças não mudavam de nome. Hoje a rua com o nome de “Corredor do Calabrases” foi substituída, segundo consta, como “Rua Paranapanema”, desprezando o insubstituível trabalho feito com muito esforço pelos italianos para o progresso da cidade.
Este tipo de política urbana contraria Paris. O bairro localizado ao lado do museu mais importante do mundo, o Louvre, chama-se “brejo”, ou “marais”. Do outro lado da grande capital há uma rua denominada “Sabot”. Segundo a história local os primeiros trabalhadores do processo de industrialização, para reivindicar seus direitos jogavam seus tamancos (“sabot”) quebravam as máquinas, promovendo uma “sabotagem”. O fato foi perpetuado no vocábulo.
Muito importante é a cidade, como Paris, manter os nomes revelados por sua história para consagrar as suas aberturas monumentais.
* Advogado, professor livre docente aposentado da Unesp, doutor, procurador de Justiça aposentado, e membro da Academia Ribeirãopretana de Letras

