Cidade terá insetário para produção de mosquitos que serão utilizados no município e abastecerão outras três regiões do interior paulista
Em nova frente de combate à dengue, ao zika vírus e à febre chikungunya, a prefeitura de Ribeirão Preto anunciou, nesta quarta-feira, 26 de agosto, a implantação do Método Wolbachia, tecnologia que utiliza mosquitos Aedes aegypti portadores da bactéria Wolbachia, capaz de dificultar o desenvolvimento dos vírus dentro do inseto.
A iniciativa é conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Ministério da Saúde e operada pela Wolbito do Brasil. O papel do município vai além da aplicação local da estratégia, Ribeirão Preto sediará um insetário responsável pela produção dos mosquitos utilizados no método e também abastecerá São Carlos, Araraquara e São José do Rio Preto.
Terá capacidade para a produção de um milhão de mosquitos inoculados com a bactéria por semana. Setecentos mil serão distribuídos na cidade e o restante irá para os outros três municípios. A distribuição será feita durante 26 semanas. em 16 bairros das zonas Norte e Oeste, alcançando mais de 141 mil moradores.
O custo do projeto para o município é de R$ 4 milhões, sendo que metade será custeada pelo Ministério da Saúde e o restante pela prefeitura – R$ 2 milhões cada. A iniciativa é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
“Com a instalação do insetário, Ribeirão Preto passa a ocupar posição estratégica na expansão do método para o interior paulista. Além de proteger a própria população, a cidade se tornará centro regional de produção da tecnologia”, afirma o prefeito Ricardo Silva (PSD).
O anúncio ocorre em um cenário favorável para o município. Após enfrentar, em 2024, a pior epidemia de dengue de sua história, com 44.630 casos confirmados, Ribeirão Preto registrou redução significativa da doença. Em 2025, foram contabilizados 21.594 casos e onze mortes.
Neste ano, até o momento, são 372 casos confirmados e nenhum óbito. Para Mauricio Godinho, secretário municipal da Saúde, a chegada do Método Wolbachia representa a consolidação de uma estratégia que combina assistência, vigilância e inovação tecnológica.
“Estamos consolidando uma estratégia de enfrentamento às arboviroses que atua em todas as frentes. Cuidamos de quem precisa de assistência, intensificamos o trabalho de vigilância e prevenção e incorporamos a inovação como uma ferramenta permanente de proteção à população”, diz.
Como funciona – A Wolbachia é uma bactéria presente naturalmente em mais da metade dos insetos existentes no planeta e não oferece riscos à saúde humana. Quando introduzida no Aedes aegypti, ela impede que os vírus das arboviroses se desenvolvam adequadamente dentro do mosquito.
Ao serem liberados no ambiente, os mosquitos portadores da bactéria cruzam com a população local e transmitem a Wolbachia para as gerações seguintes. Com o passar do tempo, a bactéria se estabelece de forma permanente na população de mosquitos, reduzindo a capacidade de transmissão das doenças sem a necessidade de reaplicações contínuas.
A tecnologia não utiliza produtos químicos nem envolve modificação genética dos insetos, segundo Gabriel Sylvestre Ribeiro, gerente de implementação da Wolbito do Brasil. De acordo com Lívia Carla Vinhal Frutuoso, coordenadora-geral de Vigilância de Arboviroses do Ministério da Saúde, o método faz parte das iniciativas inovadoras de combate às arboviroses e já apresenta resultados positivos.

Em Niterói (RJ), por exemplo, a redução dos casos de dengue chegou a 70% em áreas onde o método foi consolidado. Antes do início das liberações dos mosquitos, a Wolbito do Brasil e a Secretaria Municipal da Saúde realizam uma ampla etapa de comunicação e engajamento social nos bairros contemplados.
Profissionais da Vigilância em Saúde e gestores escolares já passaram por capacitações para atuar como multiplicadores das informações sobre o método. As solturas serão realizadas semanalmente por equipes especializadas, utilizando veículos e equipamentos próprios, em pontos estratégicos dos bairros selecionados.
“Observamos os impactos da implementação desta tecnologia em cidades brasileiras por mais de dez anos, e todos os resultados trouxeram robustez para que o método fosse implementado como uma política pública dentro do Ministério da Saúde”, afirma Diogo Chalegre, pesquisador da Fiocruz.
Outra ferramenta já incorporada à estratégia municipal são as Estações Disseminadoras de Larvicida (EDLs), implantadas em 2025. Atualmente, 1.300 unidades estão distribuídas em pontos estratégicos da cidade. A tecnologia utiliza o próprio mosquito para transportar o larvicida a outros criadouros, ampliando o alcance do controle vetorial.

