A Urgência de Fortalecer a Rede Pública no Pós-Pandemia
Humberto Tobé *
Fatima Christine **
No município de Ribeirão Preto, o debate sobre a saúde mental deixou de ser uma pauta secundária para se tornar uma urgência de gestão que precisa pautar a rede de atenção pública. Com uma população de 698.642 habitantes (IBGE, 2022), a cidade enfrenta um desafio de escala: embora conte com nove serviços especializados: seis CAPS, dois ambulatórios e um serviço de urgência, a rede atual ainda não atinge a cobertura necessária. De acordo com a literatura internacional, uma cidade deste porte demandaria atendimento para cerca de 70 mil pacientes, um patamar que a estrutura atual ainda busca alcançar. A recente inauguração, em abril de 2026, do novo CAPS II Centro Sul no bairro Jardim Maria Goretti — resultado da unificação das unidades Sul e Central em uma estrutura mais moderna — é um avanço real, mas deve ser encarada como um ponto de partida, e não de chegada, para suprir os vazios assistenciais da região.
Essa necessidade local reflete um cenário global devastador. A pandemia de Covid-19 deixou uma ferida que não aparece só nas estatísticas: ela se mostra no dia a dia das famílias ribeirão-pretanas, nas crises de ansiedade, na depressão silenciosa e no esgotamento dos trabalhadores. No primeiro ano da crise sanitária, a prevalência global de ansiedade e depressão subiu 25%, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, um estudo com 45.161 adultos revelou que 40,4% relataram tristeza frequente e 52,6% ansiedade durante o período. Em 2024, o país registrou um aumento de 68% nos afastamentos do trabalho por transtornos mentais, totalizando mais de 472 mil casos. Em Ribeirão Preto, os números confirmam essa pressão: o atendimento em Saúde Mental saltou de 75 mil em 2020 para 209.806 em 2024. Embora expressivo, esse volume se distribui entre pacientes que exigem acompanhamento contínuo, gerando dezenas de consultas e oficinas anuais para cada indivíduo.
O problema central é que o sistema público, já fragilizado, saiu da pandemia sobrecarregado. No estado de São Paulo, os procedimentos clínicos ambulatoriais no SUS saltaram de 2,1 milhões em 2020 para 3,8 milhões em 2024, enquanto as internações subiram de 48 mil para 56 mil. Em Ribeirão Preto, apenas em 2024, foram realizadas cerca de 300 internações psiquiátricas. É neste contexto que a expansão dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) se torna vital. O Novo PAC Seleções, do Governo Federal, prevê a construção de 130 novos CAPS para responder a esses vazios assistenciais com uma abordagem humanizada. Defender essa expansão nos territórios não é apenas construir prédios, mas garantir a capacidade pública de oferecer atenção especializada onde o cidadão vive.
Para compreender a eficácia dessa política, é preciso olhar para quem está na ponta. O pesquisador Michael Lipsky conceitua a “burocracia de nível de rua” para explicar que o Estado real se manifesta nas decisões cotidianas dos profissionais da linha de frente: psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e médicos. Em Ribeirão Preto e no Brasil, o pós-pandemia tornou esse trabalho ainda mais duro, com equipes sobrecarregadas e limites no atendimento remoto. Quando há estrutura, a discricionariedade do servidor se transforma em cuidado qualificado; sem ela, vira improviso.
Mas onde instalar esses serviços importa tanto quanto instalá-los: refletir sobre o território também é de suma importância. Como defende o geógrafo Milton Santos, o território não é apenas um endereço burocrático, mas o espaço real da vida onde se acumulam desigualdades de renda, mobilidade, moradia, violência e acesso ao Estado. Na saúde mental, esses elementos influenciam diretamente o quadro clínico. Por isso, levar CAPS para as áreas mais vulneráveis de Ribeirão Preto significa enfrentar a desigualdade socioespacial e aproximar o direito à saúde de quem mais precisa.
Portanto, embora a modernização da rede em Ribeirão Preto seja um passo louvável, prefeitos e gestores da região devem assumir um compromisso que vai além da placa de inauguração. Não basta abrir portas; é preciso garantir a continuidade do cuidado, a manutenção das equipes, a articulação com a atenção básica e o funcionamento efetivo em rede. Só assim garantiremos que o cidadão que acessa o SUS encontre uma resposta real ao seu sofrimento, evitando que o atraso no atendimento se transforme em um agravamento irreversível da crise.
* Pós-graduado em Gestão da Saúde Pública, é Analista de Gestão no Ministério da Saúde atuando na interlocução com municípios paulistas
** Fatima Christine é graduada em Economia e Pedagogia, com pós-graduação em Educação Parental e Socioemocional: servidora pública federal da Secretaria Executiva do Ministério da Saúde

