Entre as bases das instituições de nosso tempo, está o pensamen­to iluminista, dos séculos XVII e XVIII, período importante a que chamamos Modernidade filosófica.

Naquela época ocorreram transformações decisivas. Aconte­ceu a transição do Antigo Regime, feudal, para o Estado Liberal. Movimentos revolucionários no campo da política, da economia, do direito, trazem uma nova ideia de ser humano e de sociedade. Surge o individualismo, traço principal do liberalismo político e econômico e, no plano jurídico, do constitucionalismo e do contratualismo.

O individualismo, enquanto concepção antropológica (isto é, enquan­to teoria sobre o ser humano), significa várias coisas. Em primeiro lugar: o ser humano não se torna quem é em razão de viver em uma comunida­de. A comunidade é uma construção do indivíduo, e não o contrário.

Os liberais também acreditam que a ação egoísta dos indivíduos sempre levará ao bom funcionamento da sociedade como um todo, em razão de leis naturais. Sem consciência do que fazem, sem que obedeçam a qualquer planejamento comum, as iniciativas dos indivíduos levarão ao bom funcionamento do sistema econômico, político e jurídico. Basta apenas que cada um cuide da sua vida, de seus próprios interesses, sem direcionamentos coletivos, para que a sociedade funcione com equilíbrio.

O pensamento político liberal copiou esta ideia de outras ciências daquela época. Na sua origem está a Física newtoniana, com suas leis deterministas que estruturam um mundo mecânico harmônico. Como ensina o Prof. Arno Wehling, estas ideias nasceram na Física e se espalharam para a Biologia (Lineu, 1730), para a Política (Montes­quieu, 1748), para a Economia (Quesnay, 1758; Adam Smith, 1776). Existem leis inevitáveis que governam os corpos, os seres vivos, os mercados e os sistemas sociais.

A comunidade, com suas leis, deve cuidar apenas de evitar que um indivíduo prejudique os outros, mas não devem tentar organizá­-los em projetos comuns. O máximo que a comunidade deve fazer é impedir que um interfira na atividade do outro, e por isso o Estado Liberal é conhecido como o Estado do laissez-faire. É um Estado que não interfere na economia, não ajuda e nem atrapalha.

Estas ideias são totalmente contrárias ao que acreditavam outros autores, como Aristóteles e Tomás de Aquino, da tradição comunita­rista que nega o individualismo.

Para eles, cada um de nós apenas pode sobreviver como um ser humano se puder viver em uma família, em uma sociedade humana. Nós apenas nos tornamos quem somos a partir das comunidades em que vivemos, e que ajudamos a construir. Não seríamos nada sem elas, não saberíamos falar, nem pensar.

Mais do que isso, eles acreditavam que a comunidade apenas pode funcionar bem se as pessoas tiverem iniciativas conjuntas, pro­jetos que façam com que a vida seja melhor, se houver um empenho ético e inteligente para construir, manter e aprimorar a vida comum.

São duas posições políticas muito diferentes.

Para saber qual é a nossa posição – dentre estas duas possibilida­des – basta fazer algumas perguntas simples, práticas.

Pense na família. Ela funcionará melhor se cada um procurar o seu próprio sucesso, ou se houver um esforço comum para ajudar cada membro? É melhor que os membros da família conversem sobre seus objetivos comuns, ou existem leis naturais que fatalmente levarão ao sucesso da família a partir do egoísmo de cada um?

Pense numa sociedade empresarial. Ela funcionará melhor se cada sócio tomar suas decisões sozinho, pensando em seu exclusi­vo interesse, ou se eles conversarem e decidirem juntos o modo de organizar as coisas?

Na sociedade como um todo, a mesma coisa. Ela funcionará melhor se for cada um por si, ou se houver a reflexão e o empenho conjunto para oferecer a todos as melhores condições de vida?

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