O colunista desta sexta-feira nos cedeu este espaço para que expu­séssemos algumas queixas e nossas propostas à arborização da cidade. Somos as sibipirunas da Nove de Julho. Contribuímos para embelezar e refrescar esta charmosa avenida. Fomos plantadas por um jardineiro da prefeitura, nos primeiros anos da década de 40 do século passado. Já são quase 80 anos florescendo nos meses de setembro e outubro, sombrean­do o caminho de pedestres, acompanhando o movimento dos veículos.

Junto do piso de paralelepípedos e de edificações assobradadas, fo­mos o cartão postal da cidade por muitas décadas. Nos últimos anos, nosso recanto tem sido ignorado, motivo de desleixo, e é assim que surgem ideias mirabolantes com gasto excessivo de recursos. Não é de novas placas de bronze que precisamos, mas sim do olhar cuidadoso e permanente de cada morador e do administrador da cidade.

Falamos em nome de todas as sibipirunas, canafístulas, sapu­caias, paineiras, perobas, quaresmeiras, cássias e acácias. Somos parte importante da paisagem urbana, pois fornecemos uma enorme quantidade de benefícios ao ambiente e, consequentemente, aos ha­bitantes e visitantes. Sabemos que nossa ausência é sentida de modo especial numa cidade que coleciona dias quentes na maior parte do ano. Daí a necessidade de sermos tratadas, também, de modo particular, por meio de investimentos, manejo com conhecimento técnico, urbanismo com maior sintonia à natureza e participação da sociedade. Árvore por aqui deveria ser sinônimo de saúde pública!

Gostaríamos que os espaços aéreo e subterrâneo disponíveis para nossa permanência fossem ampliados. Para isso, sugerimos que as fiações de transmissão de energia se modernizem; sejam todas embor­rachadas, protegidas, de forma a evitar problemas de curto-circuito e queda de energia quando galhos tocam os fios. Desta forma podere­mos nos desenvolver plenamente, evitando as frequentes e inadequa­das podas. Os gastos com interrupções de energia também diminui­rão drasticamente. Sugerimos que a companhia de distribuição de energia elétrica e a prefeitura municipal formalizem um protocolo de compromissos para, no prazo de 15 anos, substituir toda a fiação aérea da cidade. Que tal iniciar pela avenida Presidente Vargas?

Os canteiros ao redor das árvores deverão ser ampliados gene­rosamente de modo a permitir a infiltração de água e a aeração do solo. Nossas raízes adoecem e morrem em solos áridos e compacta­dos. Com pouca sustentação, muitas de nós têm caído em situações de chuvas e ventos fortes. Há técnicas conhecidas para melhorar a condição do solo e estimular o desenvolvimento de novas raízes. Pedimos que nunca façam podas em nossas raízes, como fizeram na Francisco Junqueira! Queremos nos manter firmes, pois as mudan­ças do clima já nos colocam novos desafios.

A cultura de saber cuidar das árvores deverá ser estimulada por meio de formações técnicas. Bons viveiristas, jardineiros e podado­res são o maior segredo para que a arborização contribua de manei­ra plena com o ambiente urbano. Além disso, saber cultivar plantas é uma oportunidade nobre de trabalho para jovens e adultos. Desde a formação das mudas, passando pelo plantio, controle de doenças, podas, manejo do solo, até as extrações, quando necessárias, são muitos serviços que demandam frentes e postos de trabalho. Além do mais, a botânica gera afeto; a cidade mudará sua face.

Também queremos reivindicar aos profissionais que autorizam o corte de árvores que sempre seja buscada alternativa técnica, de modo sincero e profissional. Que a opção de suprimir uma de nós seja uma decisão tecnicamente justificada; nunca por medo ou imposição de quem solicita a extração. Gostaríamos de propor, neste sentido, que haja capacitação permanente dos técnicos que deci­dem pela manutenção ou não das árvores, visto o desenvolvimento na área da silvicultura urbana para a preservação de árvores nas cidades. Sabemos que há técnicas que nos curam e nos conservam. É preciso atualização dos “médicos” de plantão.

Por fim, queremos também agradecer aos que plantam, que acompanham, que poetizam e que se dedicam a cada uma de nós. É por esse olhar atento que florescemos. Assinado: Sibipiruna (Cae­salpinia pluviosa), árvore nativa do Bioma Mata Atlântica, espécie utilizada com êxito na arborização de cidades brasileiras.

“A coisa mais civilizada do mundo é uma bela árvore” (Millor Fernandes).

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