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Só a solidariedade da aldeia poderá nos salvar

Foto: Arquivo

José Eugenio Kaça *
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A educação formal e a educação informal caminham juntas, e se imbricam formando a cidadania. Porém a educação não acontece isoladamente, ela acontece na família e na escola e nas ruas, e precisa de ter uma amalgamação para ter qualidade. Há um provérbio africano que sintetiza esta ideia: “Para educar uma criança é preciso toda uma aldeia”. O conceito de aldeia remete a um conceito comunitário, onde todos participam das decisões de comum acordo e as respeitam. Todavia o conceito de aldeia foi engolido pela lógica de mercado, onde a convivência humana harmoniosa é desprezada. E o resultado da adoração do “deus” mercado é uma sociedade marcada pelo individualismo e o consumismo, e neste diapasão entra o fundamentalismo religioso, que com os seus dogmas não permite a evolução humana, e que haja igualdade entre as pessoas.

Com a Promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos esperava-se que a humanidade percorresse o caminho da paz e da solidariedade, entretanto, essa ideia de paz e solidariedade ficou apenas no papel, e com o passar do tempo os artigos desta Declaração foram caindo em desuso, e com isso as decisões deixaram de ser coletivas, e passaram a ficar nas mãos de que têm o poder bélico, e tudo voltou a ser como sempre foi. O Brasil, vive desde a invasão portuguesa uma dicotomia de ser uma Nação ou viver eternamente sendo subjugado pelo império da vez.

A pintura “Um jantar brasileiro, de 1827, do Pintor francês Jean Baptista Debret, que retrata uma família proprietária de escravizados, jantando confortavelmente sentada nas cabeceiras da mesa, e no chão os filhos dos escravizados pelados, sendo alimentados com as migalhas caídas da mesa de seus senhores, mostra os costumes dos ricos que viviam na opulência da Corte Imperial. A pintura de Debret retratou os costumes da chamada “elite” durante o Império, continuou e se aprofundou com o advento da República, e produz seus efeitos até os dias de hoje. Decidir no entorno de uma mesa o destino de uma população inteira é o que vem acontecendo há séculos. Na mesa retratada por Debret, às crianças foram substituídas pelo povo das periferias pobres. A mesa é o símbolo do poder, e ao que a contornam se acham com o direito de decidir sobre a vida e a morte de uma população inteira.

A democracia republicana é um sistema de governo que engana a população, pois afirma que o poder emana do povo, que elege seus representantes, que na teoria vai governar para o bem de todos. Entretanto, a democracia republicana se mostrou um sistema fechado, que beneficia majoritariamente os que vivem no entorno da mesa. A população nunca é ouvida e nem participa das decisões que a afeta diretamente as suas vidas.Essa população só é chamada de tempos em tempos, para depositar nas urnas suavontade. Acontece que a vontade popular é manipulada de forma vil por uma propagandaq ue coloca o candidato como o grande salvador da Pátria, e a manipulação da vontade popular mantém sempre os mesmos ao redor da mesa que simboliza o poder.

Não permitir que a educação seja de qualidade e para todos é a política de Estado da “elite” que contorna a mesa. São sabedores que uma educação básica de qualidade muda o destino de um povo, que não vai mais ser enganados por demagogos e pistoleiros que abocanham o poder. A frase: “Congresso inimigo do povo” diz bem a serviço de quem estão nossos congressistas. Ser a favor da intervenção estadunidense no Brasil, mostra bem a falta de qualidade moral dessa gente. A proposta da escala 7×0 para afrontar a escala 5×2 aprovada na Câmara dos deputados, extinguindo a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) trazendo de volta a desregulamentação do trabalho pré-CLT, quando só se ganhava por hora trabalhada, sem direto algum.

No passado aprendíamos na escola a amar a Pátria, através dos versos de Olavo Bilac, Gonçalves Dias, Rui Barbosa, e quando nos apropriávamos desta obra literária nos sentíamos fortalecidos pelo sentimento de Pátria. Mas este sentimento só ficou interiorizado no povo, pois a “elite” sempre nutriu a vontade de se entregar ao país mais forte, como sempre fizeram, e estão fazendo agora. Pois essa “elite” acredita: “que o mais forte sempre será o senhor”. Diferentemente do povo, que acredita: “o mais forte nunca é bastante forte para ser sempre o senhor”.

* Pedagogo, líder comunitário e ex-conselheiro da Educação

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