Ribeirão Preto amanheceu nesta sexta-feira, 24, sob um rastro de destruição. Por volta das 5h30, um temporal com rajadas de até 120 km/h varreu a cidade em meia hora, tempo suficiente para derrubar centenas de árvores, destelhar imóveis, cortar a energia e interditar a Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas, cujo teto desabou. Um homem de 75 anos morreu no desabamento de uma estrutura sobre sua residência. Os Bombeiros contabilizaram mais de 300 ocorrências e a Prefeitura decretou emergência por 180 dias.
A própria Defesa Civil reconheceu que a cidade não enfrentava nada semelhante desde 1994. Três décadas eram mais do que suficientes para transformar o trauma daquele vendaval em política permanente de prevenção. Algo que não aconteceu. A cidade cresceu e verticalizou, mas seguiu tratando eventos extremos como fatalidade, e não como certeza estatística que voltaria a bater à porta.
Ninguém responsabiliza o poder público pela fúria dos ventos (e a resposta não deixou de ser rápida), mas o momento pede perguntas. A poda preventiva acompanha o crescimento urbano? Estruturas essenciais, como a unidade de Emergência do HC (que deveria ser a última a falhar), recebem a atenção necessária? Que alerta antecipado avisou o ribeirão-pretano da tempestade enquanto ele dormia?
O simbolismo é cruel. A cidade que se orgulha de ser um dos grandes polos de saúde do interior viu seu principal pronto-socorro paralisado, provando que resiliência urbana não se improvisa na manhã seguinte; ela é construída quando o céu está limpo e a prevenção deixa de ser o foco.
Há um agravante que 1994 não conhecia: a crise climática. Apostar que a próxima tempestade demorará também outros 32 anos não é otimismo, é negligência. O intervalo entre tragédias será cada vez menor, e a preparação precisa acompanhar.
A morte de um morador sob os escombros não pode ser reduzida a estatística de ocorrência. Que ela marque o ponto em que a cidade deixa de reagir e passa a se antecipar.
Em 1994, Ribeirão Preto se disse que aquela tempestade jamais seria esquecida. E parece que esquecemos mesmo. Triste lembrar dessa forma.

