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As cidades imaginárias

Antonio Carlos A. Gama *
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Alberto Manguel e Gianni Guadalupi são autores do “Dicionário de Lugares Imaginários”, que nos guia por lugares inventados pela literatura universal e brasileira, como Oz, Xanadu, Atlântida, o País das Maravilhas, o Sítio do Pica-Pau Amarelo, Pasárgada…

Alberto Manguel, ainda muito jovem, foi um dos ledores para Jorge Luis Borges, quando este estava quase cego, experiência por ele revivida em outro livro encantador, “Uma História da Leitura”. O próprio Borges criou muitos lugares e cidades imaginárias, na sua ficção.

No aludido dicionário, ao pé de cada verbete, há anotações dos autores e livros de onde se extraíram as referências sobre esses lugares imaginários. E são centenas de verbetes, muitos deles ilustrados.

Na verdade, porém, todas as cidades, construídas de ruas, praças, casas, de tijolo e pedra, com as suas igrejas, as suas árvores, os seus jardins, a sua gente, a sua noite e a sua manhã, são imaginárias. Porque a imaginação cobre a realidade, ou a supre. E toda geografia é, de algum modo, mitológica.

Cada um de nós cria a sua própria cidade. E é a única ou a verdadeira maneira de morar nela. A remota cidade da infância, já desaparecida, ou transformada em outra, nós a reconstruímos a cada dia.

O Rio de Janeiro, de Machado de Assis, conheço-o palmo a palmo. Frequento a Livraria Garnier, a Rua São José, a Rua do Ouvidor, o Largo de São Francisco, de onde partem os tílburis, o Beco das Carmelitas. E, como Rubião, vejo aquele pedaço de mar tranquilo, em Botafogo.

Em Lisboa, passeio com Eça de Queiroz. E fico sempre um pouco preocupado com o seu monóculo, que volta e meia lhe cai do olho.

Manguel, em seu dicionário, alude ainda à cidade ou país de Herland, do qual se ignora a localização. É do tamanho da Holanda, e com uma população de cerca de três milhões de habitantes. Os estrangeiros que o visitam são obrigados a jurar não revelar o seu segredo.

De minha parte, suponho uma cidade ou um país às avessas, em que o lado esquerdo é o direito, e vice-versa. Uma região do “moto-contínuo”, na qual se descobriu a quadratura do círculo. De moinhos que não giram soprados pelo vento e que antes, eles mesmos, sopram o vento. As suas ruas são iluminadas não pelas lâmpadas dos postes, mas pela lua e pelas estrelas. E na qual não há portas nem janelas, porque tudo é aberto.

O tempo e o espaço são restrições e, felizmente, abstrações. Ninguém tem domicílio numa só cidade. Ao contrário, dentro dela há numerosas outras, principalmente as que se criam em nossa imaginação. Ao dobrar uma esquina, damos com um sobrado que nunca existiu, mas nele mora a nossa mulher amada.

Se não podemos erguer as cidades com pedra e concreto armado, podemos criá-las com a argamassa da imaginação. E povoá-las com todos os tipos, as personagens que saltam dos livros e vivem em todas as épocas e se vestem de todas as modas.

As cidades imaginárias têm isto de bom: todos nós podemos acrescentar-lhes o que os outros nelas não viram, ou ainda lhes faltam: um pátio, um chafariz, uma ponte, uma varanda debruçada sobre um rio. A sua existência prolonga-se nos sonhos, e basta abrir uma janela para que nos cheguem o perfume das suas flores ou a cantiga de uma lavadeira.

* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

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