Antonio Carlos A. Gama *
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Nos últimos meses dormia mal, acordando de tempo em tempo.
Não era coisa da idade, embora já fosse um senhor da melhor idade, como deram de chamar a velhice.
Tudo por causa do vizinho Virgulino, com quem se meteu numa briga feia, que lhe escangalhou uma perna e o deixou manco, ou portador de deficiência, como também se diz agora.
Desde então, sua vingança diária era acordar antes de Virgulino para perturbá-lo e humilhá-lo.
Chacoalhou a cabeça para espantar o resto de sono e saiu de mansinho para o quintal, manquitolando.
Olhou para o céu, de um azul profundo, ainda cheio de estrelas. Mas sua experiência lhe dizia que lá adiante, onde a vista não alcança, o amanhecer se espreguiçava.
Acomodou-se, estufou o peito, enchendo os pulmões de ar, bateu as asas e o seu canto saiu forte e retumbante, como de um tenor, ribombando longe.
Alguém protestou e o xingou, porém isso não tinha a menor importância. Mais uma vez dera uma lição ao Virgulino, que só então vinha para fora, esbaforido, para esganiçar seu canto mixuruca e rouquenho.
Por volta do meio-dia, quando passeava orgulhoso pelo terreiro, exibindo-se para as galinhas matronas e algumas franguinhas que já estavam no ponto, foi subitamente agarrado e enfiado numa gaiola.
Pensou no pior, que sua hora tinha chegado e que iria acabar numa panela, para alegria do Virgulino.
Felizmente não era nada disso.
Apenas foi levado para um sítio distante, parecido com o lugar onde tinha nascido e passado a juventude.
Veio a saber depois que fora retirado por reclamações da vizinhança, que não suportava mais o seu canto potente e madrugador.
Mas, não se queixa da nova vida. Não tem mais o Virgulino por perto, e o terreiro é enorme, com muitas galinhas e franguinhas viçosas. Há uns garnisés borra-botas que, mesmo ele estando manco, o respeitam e não se atrevem a enfrentá-lo.
Em vez de comer apenas ração, pode agora ciscar à vontade e se fartar com as guloseimas de que mais gosta.
Dizem que a vida na natureza, comendo produtos orgânicos, é muito mais saudável e prolonga a existência.
Espera viver muitos anos mais, como o dono do terreiro.
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

