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Inteligência artificial ou outro nome que o valha… isso faz diferença?

Conceição Lima *

“Esqueçamos Inteligência Artificial. Pensemos em Amplificação da Inteligência.” (GUIZZARDI, Giancarlo)

O termo Inteligência Artificial, criado em 1958, é mais rótulo do que essência. Poderia ser outro nome e nada mudaria. O que realmente importa é que esses sistemas já estão entre nós e não vão desaparecer.

No conto de ficção “História da Sua Vida”, o escritor norte-americano de origem taiwanesaTed Chiangnarra a trajetória da linguista Louise Banks, convocada pelo governo para decifrar a linguagem de misteriosos alienígenas recém-chegados à Terra, os heptapods. Ao dominar essa língua, Louise descobre que essa língua não segue uma ordem linear, mas é concebida como um todo simultâneo.Assim,Louise passaa experimentar o tempo de forma diferente: não mais como uma sequência de passado, presente e futuro, mas como um fluxo único em que todos os momentos coexistem.

Essa nova percepção a leva a “conhecer” eventos futuros, inclusive a morte inesperada de sua filha, muito antes até de concebê-la. Mesmo diante desse destino trágico, Louise escolhe viver cada instante, aceitando que o valor da experiência não está em evitar a dor, mas em abraçar o amor e a plenitude da vida. O conto mostra, de forma contundente, que a linguagem é uma janela para o mundo. Como afirmou Wittgenstein: “Os limites do nosso mundo são os limites da nossa linguagem.”

Quando falamos da chamada Inteligência Artificial (IA), a questão é semelhante. Trata-se de uma forma de comunicação “alienígena” para os viventes da era da escrita. Uma comunicação incorpórea, sem experiência real de mundo, sem fome, frio, medo ou amor. Uma linguagem com epistemologia distinta, que não se ancora na veracidade, mas na correlação de dados.Assim como no conto, em que a linguagem alienígena altera a percepção de realidade da protagonista, também a IA modifica nossa forma de ver e conceber o mundo. A polêmica em torno da nomenclatura (“inteligência” e “artificial”) talvez seja apenas um desvio de foco.

O termo “Inteligência Artificial”, cunhado por John McCarthy em 1958 é apenas uma escolha aleatória. O nome poderia ser qualquer outro, sem alterar a essência do fenômeno. Daí, se ele é remédio ou veneno, isso pouco importa. O fato é que existe e não vai desaparecer. Nosso contato com ele, inevitavelmente, modificará nossa percepção e concepção de mundo.

Talvez seja hora de abandonar o radicalismo das palavras “inteligência” e “artificial”. Como propõe Guizzardi, inspirado em Licklider (autor do artigo “Simbiose Homem-Máquina”, de 1960), deveríamos pensar em AI: Amplificação da Inteligência. Essa mudança de perspectiva nos permite enxergar tais sistemas não como rivais, mas como extensões de nossas capacidades, voltadas para projetos humanos, regidos por normas éticas, culturais e legais.

Com o foco ajustado, podemos realmente admirar a sofisticação dessas tecnologias recentes:

• Sistemas de IA já detectam formas sutis de câncer com precisão superior à de especialistas humanos, não para substituí-los, mas para empoderá-los;
• Em 2024, três prêmios Nobel tiveram relação direta ou indireta com a IA, em Física, Química e Economia. É provável que vejamos cada vez mais descobertas resultantes da parceria entre humanos e máquinas.

Mesmo ferramentas como o ChatGPT impressionam: apenas correlacionando dados, sem regras explícitas, dominam a sintaxe humana e ampliam nossas capacidades de tradução, resumo e até de pensamento. Ainda assim, é importante lembrar que a comunicação humana não se reduz à sintaxe. A semântica e a pragmática vêm da nossa experiência encarnada, dos nossos corpos, objetivos e nossa história individual e coletiva.

Escrever um texto criativo vai muito além de delegar essa tarefa para um sistema de IA generativa. Pressupõe escolhas únicas, que refletem a identidade de quem escreve.escolhas individuais para cada palavra, frase e parágrafo, abandonando assim uma enormidade de outras opções. Cada palavra, frase e parágrafo é fruto de decisões que moldam o pensamento. O mesmo vale para pintura, escultura, música e todas as artes.

O que temos, portanto, não é uma “Inteligência Artificial” no sentido estrito, mas uma “Amplificação da Inteligência”. Ao adotar essa visão, talvez possamos eliminar a paranoia em torno de riscos existenciais de máquinas autônomas e focar naquilo que realmente importa: usar essas tecnologias para expandir nossas capacidades humanas. Há muitas razões para otimismo. Esqueçamos IA. Pensemos em AI.

* Doutora em Letras, com pós-doutorado em Linguística, escritora, conferencista e palestrante, membro eleito da Academia Ribeirãopretana de Letras e da Academia membro fundador da Academia Feminina Sul-Mineira de Letras

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