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Inquérito da Voepass na fase final


Secretaria de Segurança Pública de São Paulo
Acidente com o ATR-72 500 da Voepass foi o primeiro com vítimas em solo brasileiro desde o caso do avião da TAM que fazia o voo 3054, em julho de 2007


Famílias acessam últimas conversas antes de acidente de avião da Voepass em Vinhedo, em 2024

José Maria
Tomazela (AE)

Quase dois anos depois, as investigações sobre o acidente do voo 2283 da Voepass Linhas Aéreas em 9 de agosto de 2024 com a morte dos 62 ocupantes do avião entram em fase final. O inquérito da Polícia Federal deverá ficar pronto até o final deste mês, segundo a corporação.

Já o relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) da Força Aérea Brasileira (FAB) está em fase de revisão por autoridades internacionais, conforme o órgão.

De acordo com o advogado Luciano Katarinhuk, que atua na defesa das famílias, a expectativa é de que haja indiciamento de pessoas que não estavam a bordo e teriam responsabilidade pelo acidente.

O voo 2283, operado por um ATR-72 de matrícula PS-VPB da Voepass Linhas Aéreas, saiu do Aeroporto Coronel Adalberto Mendes da Silva, em Cascavel (PR), às 11h58, com 58 passageiros e quatro tripulantes. A aeronave tinha como destino o Aeroporto Internacional Governador André Franco Montoro, em Guarulhos (SP).

Quando se preparava para iniciar o procedimento de pouso, o avião perdeu altitude. Eram 13h21 quando começou a cair em espiral. A queda foi filmada por várias pessoas, atônitas com o que viam. Levou cerca de um minuto. O avião caiu no quintal de uma casa em um condomínio, na cidade de Vinhedo, na região de Campinas (SP).

Com o impacto no solo, explodiu e pegou fogo. Todos a bordo morreram. Não houve vítimas em solo. Após o acidente, a Voepass teve o alvará de operador aéreo cassado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A empresa havia informado que somente o relatório final do Cenipa poderá apontar, de forma conclusiva, as causas do acidente.

Na terça-feira, 30 de junho, representantes das famílias das vítimas do quinto acidente aéreo mais fatal da história no Brasil tiveram acesso à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave antes da tragédia. De acordo com a presidente da associação das famílias de vítimas do acidente, Fátima Albuquerque, os familiares estavam emocionados e preferiram não ouvir os áudios.

O delegado da PF optou então por apresentar apenas as transcrições. “O laudo pericial tem mais de 200 páginas e foi mostrado em primeira mão aos familiares, como a PF havia prometido. O que se confirmou é que haverá indiciamentos, ou seja, a responsabilização de pessoas criminalmente pelo que aconteceu”, diz o advogado.

Segundo ele, o avião não poderia estar voando. “Todos os responsáveis que mantiveram esse avião voando devem ser responsabilizados, pois deveriam ter deixado o avião em solo. Se o piloto teve culpa, ele pagou com a vida, mas há outros culpados.”

Conforme o defensor, o laudo pericial trouxe elementos relevantes, que não podem ser divulgados porque o inquérito está em sigilo. Pessoas que já foram ouvidas como informantes, agora prestarão depoimento como indiciadas. “Houve uma sequência de fatores que resultaram no acidente e espero que não haja transferência de culpa para quem morreu”, disse.

Fátima, a presidente da associação das famílias das vítimas, disse que saiu da reunião mais confiante de que os responsáveis serão punidos. “A nossa luta é para que as pessoas sejam indiciadas, principalmente aquelas que comandaram a equipe que culminou com a morte de nossos familiares. Os nossos não voltam, mas é necessário uma consciência da sociedade para que cesse esse tipo de comportamento no país.”

Fátima é mãe da médica Arianne Albuquerque, que estava no voo. “Era minha filha única, minha vida. Quase dois anos depois, a gente está aqui dilacerada e só espera por justiça. O avião não quebrou naquela viagem, ele já estava quebrado. Não foi uma fatalidade”, disse.

Para Fátima, ficou provado que o sistema de degelo não estava funcionando e havia previsão de chuva e frio durante a viagem. “Aquele avião não poderia voar. É uma questão de intenção, de não fazer a manutenção, não registrar o erro, submetendo a tripulação a uma situação de risco que foi paga com muitas vidas ”

Na esfera civil, a maior parte das ações individuais já avançou para acordos com as empresas envolvidas. As famílias lutam agora pela responsabilização criminal e administrativa de supostos envolvidos. Os nomes dos que possivelmente serão indiciados não foram divulgados. Fátima diz que os familiares planejam fazer alguma cerimônia para lembrar os mortos, mas está sendo difícil para todos, pois a dor ainda é muito intensa.

Em nota, a Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Cenipa, informou que a investigação da ocorrência aeronáutica envolvendo a aeronave de matrícula PS-VPB, registrada em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP), encontra-se em fase avançada, estando atualmente na etapa de revisão final, em conformidade com os protocolos internacionais aplicáveis.

Nessa fase, o documento é submetido à apreciação dos Representantes Acreditados do Bureau d’Enquêtes et d’Analyses pour la Sécurité de l’Aviation Civile (BEA), da França, na condição de Estado de Projeto e Fabricação da aeronave, bem como do Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, na condição de Estado de Projeto e Fabricação dos motores.

O Cenipa esclarece que não há prazo definido para a conclusão das investigações e reforça que somente se pronuncia oficialmente sobre os resultados por meio da publicação do Relatório Final, conforme previsto no Código Brasileiro de Aeronáutica. Quando concluída a investigação, o Relatório Final Sipaer será publicado no site do Cenipa, com acesso público.

Um relatório do Cenipa indicou que, durante o voo, a aeronave modelo ATR-72 enfrentou condições meteorológicas propícias à formação de gelo, mas o sistema de degelo foi ligado e desligado repetidas vezes, indicando possível falha.

Vítimas – O voo era comandado pelo capitão Danilo Santos Romano, de 35 anos, tendo como copiloto o primeiro-oficial Humberto de Campos Alencar e Silva, de 61. As comissárias de bordo eram Débora Soper Ávila, de 28 anos, e Rúbia Silva de Lima, de 41.

Todos os ocupantes da aeronave eram brasileiros. Três deles também possuíam cidadania venezuelana e um tinha dupla nacionalidade com Portugal. Entre os passageiros, 27 eram moradores de Cascavel.

O acidente com o ATR-72 500 da Voepass foi o primeiro com vítimas em solo brasileiro desde o caso do avião da TAM que fazia o voo 3054, em 17 de julho de 2007 – a aeronave saiu de Porto Alegre (RS) e chocou-se contra um prédio da própria companhia depois de derrapar na pista do Aeroporto de Congonhas. Morreram 199 pessoas, 187 a bordo e doze em terra, a maior tragédia da aviação em território nacional.

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