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O custo das apostas

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Quatro em cada dez apostadores, ou 39,7%, se endividaram após o início do relacionamento com sites de jogos e apostas online, as chamadas bets

A regulamentação das apostas esportivas representou um avanço institucional, mas os números mostram que ela não foi suficiente para conter seus efeitos econômicos e sociais. Segundo o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), com base em dados do Banco Central, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões em 2025 com as bets, valor correspondente à diferença entre o que foi apostado e o que retornou em prêmios. O montante equivale a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias e evidencia que as apostas deixaram de ser apenas entretenimento para se tornar um fator de impacto sobre o orçamento doméstico.

Os dados revelam ainda que as plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transferências via Pix no período analisado. O próprio Banco Central já havia alertado, em 2024, que cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram aproximadamente R$ 3 bilhões às casas de apostas em apenas um mês, fato que impulsionou medidas posteriores para restringir o acesso desse público às plataformas. A desaceleração observada após a proibição reforça a conclusão de que parte significativa desse mercado era sustentada por famílias de menor renda, justamente as mais vulneráveis ao endividamento e à perda de patrimônio.

A questão, entretanto, vai além da regulamentação. A legislação prevê mecanismos de proteção, como o bloqueio de usuários identificados com comportamento compulsivo, mas persistem dúvidas sobre a efetividade dessa fiscalização. Paralelamente, o governo intensificou o combate às operações ilegais, retirando milhares de sites do ar e endurecendo as regras de publicidade. Ainda assim, permanece um desafio central: como controlar um mercado altamente digitalizado, que utiliza algoritmos sofisticados para manter usuários engajados e ampliar o tempo de permanência nas plataformas?

A experiência internacional mostra que restrições à propaganda, monitoramento de jogadores de risco e fiscalização permanente são medidas importantes, mas insuficientes quando desacompanhadas de educação financeira e políticas de prevenção à ludopatia. O crescimento das apostas não pode ser analisado apenas pelo potencial de arrecadação tributária ou pela geração de negócios. O verdadeiro indicador de sucesso será a capacidade do Estado de impedir que uma atividade legal continue produzindo perdas bilionárias para as famílias e aprofundando vulnerabilidades sociais. Afinal, quando o entretenimento passa a comprometer a renda de milhões de brasileiros, a discussão deixa de ser econômica e torna-se, sobretudo, uma questão de interesse público.

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