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A China que vi, a China que meus filhos confirmaram II

Maurilio Biagi Filho *

Marcelo destacou algo que merece atenção. Na primeira vez em que esteve em Pequim, em 2013, a poluição era tão intensa que praticamente não se via o céu azul. Agora encontrou outra cidade: ar mais limpo, rios recuperados, pessoas pescando dentro da cidade, avanços no saneamento, na infraestrutura e na transição energética. Não aconteceu por milagre. A China decidiu enfrentar problemas, estabeleceu metas, investiu, executou e corrigiu rumos. Não estou dizendo que tudo esteja resolvido, mas a velocidade da transformação é inegável.

Essa talvez seja uma das maiores lições que podemos tirar: planejamento, disciplina administrativa e capacidade de perseguir objetivos que ultrapassem um mandato. O Brasil tem jeito, sim. E justamente por isso não podemos aceitar como normal o que deveria nos indignar: corrupção, bets, fake news, crescimento do crime organizado, interesses pessoais acima dos coletivos, analfabetismo funcional, dívida pública equivalente a 82% do PIB, entre tantos outros problemas. Mas reconhecer nossas deficiências não significa alimentar outro vício brasileiro: o chamado complexo de vira-latas, que nos leva ora a enaltecer exageradamente as qualidades dos outros países, ignorando seus defeitos e seus contextos, ora a acreditar que somos incapazes de fazer aquilo que outros fizeram. Precisamos enxergar nossos problemas, mas defender nossas qualidades, nossa soberania e, principalmente, nossa capacidade de competir.

É nesse ponto que nossa relação com a China merece atenção especial. Há décadas, repetimos que somos grandes exportadores. E somos. Mas precisamos olhar com mais cuidado para o que exportamos e o que importamos. Exportamos matéria-prima e importamos o produto com valor agregado, tecnologia, design, marca, emprego industrial e margem de lucro. O problema não é vender para a China. O problema é não conseguirmos, em muitos casos, transformar nossas próprias riquezas em produtos de maior valor.

A China é um parceiro fundamental para o Brasil e para o mundo. O erro seria não perceber o que essa relação está nos dizendo. Durante muito tempo, imaginamos a China como uma fábrica de produtos baratos e de baixa qualidade. Conceito ultrapassado. Hoje, os chineses produzem bens de alta qualidade praticamente em todos os setores. Estão na fronteira da tecnologia, dos veículos elétricos e até híbridos a etanol, das baterias, das telecomunicações, dos equipamentos industriais, da inteligência artificial, da energia renovável e de tantas outras áreas. Enquanto isso, ainda há quem, no Brasil, olhe para a China com os olhos anos atrás.

Marcelo resumiu muito bem sua impressão ao definir a China como uma potência de eficiência e um dos principais motores da competitividade global. Concordo. E acrescentaria: é uma potência que entendeu que, no mundo moderno, não basta produzir. É preciso dominar tecnologia, processos, cadeias produtivas e conhecimento. É preciso estar dentro da cadeia de valor, e não apenas na ponta que fornece a matéria-prima.

Por isso, para o empresário brasileiro, a China deixou de ser uma oportunidade ou uma ameaça. Ela é, como disse meu filho, uma inevitabilidade. Podemos gostar mais ou menos do seu sistema político, ter divergências comerciais, criticar práticas e posições internacionais. Tudo isso é legítimo. O que não podemos é ignorar a realidade.

E aqui cabe outra reflexão, talvez com uma dose de ironia. Enquanto parte do mundo se ocupa com tarifaços, ameaças e disputas de poder, e enquanto os EUA transformam a política internacional em um espetáculo permanente, misturando guerras comerciais com ameaças e ambições geopolíticas, a China parece seguir trabalhando silenciosamente. Sem disparar um canhão, conquista mercados. Sem precisar ocupar territórios, ocupa cadeias produtivas. Sem fazer tanto barulho, torna-se indispensável.

Talvez essa seja uma das formas mais eficientes de poder no século XXI: não conquistar o território do outro, mas conquistar sua economia, sua cadeia de suprimentos, sua tecnologia e seus mercados. Enquanto alguns discutem quem será mais forte amanhã, a China investe para ser mais eficiente hoje. E eficiência, repetida durante décadas, acaba se transformando em poder.

O Brasil precisa observar isso com humildade, mas sem submissão. Temos de aprender com aquilo que funciona e confiar mais na nossa própria capacidade de construir um caminho brasileiro. Um caminho que aproveite nossas vantagens, invista em educação, infraestrutura, tecnologia, indústria, inovação e energia e nos permita agregar mais valor ao que produzimos. Precisamos discutir o Brasil de 2050 e 2060, e não apenas o próximo calendário eleitoral.

Quando estive na China pela primeira vez, voltei com pena de um país que parecia muito distante de nós. Hoje, meus filhos voltam de lá impressionados com um país que está muito à frente em diversos aspectos. A história dessas viagens, separadas por mais de quatro décadas, talvez seja a melhor demonstração de que nenhum país está condenado a permanecer onde está. Países mudam. Sociedades mudam. E algumas mudanças acontecem em uma velocidade que ninguém consegue imaginar no começo.

É por isso que, diante de mais uma eleição que se aproxima, talvez valha a pena fazer uma pergunta a nós mesmos: o que estamos fazendo com o Brasil que temos nas mãos? Continuaremos escolhendo pelo benefício imediato, pela promessa mais conveniente, pelo discurso mais barulhento ou pela polarização do momento? Ou começaremos a exigir de quem pretende nos governar algo menos sedutor, porém muito mais importante: competência, seriedade, visão de futuro e um projeto de país que vá além do próximo mandato? Fica a reflexão.

* Empresário

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