Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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Foi um susto tremendo. Na mesma noite, sonhei com um lugar cheio de plásticos e descartáveis usados. Essa sujeira ia me seguindo, até que eu era obrigada a entrar num buraco bem estreito. Um pesadelo! Sujeira, claustrofobia. Nem precisa ler Freud para interpretar esse sonho: frustração, adversidades, estresse. Ao acordar, a perspectiva de mudanças trouxe um cenário ainda pior.
Penso nas conquistas do SUS, nos remédios gratuitos distribuídos pela Farmácia Popular. No Gás do Povo, para que a família não precise usar lenha ou combustíveis prejudiciais ao corpo, já debilitado. Finalmente, na área da saúde o maior feito é permanecer fora do Mapa da Fome, onde já estivemos, basta lembrar das pessoas revirando lixo atrás de comida e ossos.
Relembro a Tarifa Social de Energia Elétrica para pessoas de baixa renda. O Programa Minha Casa, Minha Vida, que garante moradia aos mais necessitados e é reconhecido mundialmente como um exemplo a ser seguido. O Bolsa Família completa a assistência social para famílias em situação socioeconômica vulnerável.
Na educação, recordo o Pé de Meia, programa social para estudantes de ensino médio. Para a graduação, o estudante pode se candidatar ao Sisu, Prouni ou Fies. Abrangendo o ensino superior público e privado, o critério de seleção mescla desempenho no Enem e renda familiar, para possibilitar acesso à formação profissional qualificada. É fato que o diploma não garante a remoção de todos os obstáculos, mas pode reduzir o risco de desemprego e ampliar ganhos salariais.
Esses programas sociais geram dados divulgados na internet para a interpretação de especialistas. Mesmo partindo de dados concretos, as análises divergem dependendo de quem avalia e tais divergências deveriam ser tratadas como naturais, previsíveis em sociedades democráticas. Já houve época em que colocávamos o adesivo do nosso candidato no carro, lembra? Hoje é perigoso até usar a camiseta do partido de sua predileção, porque você pode apanhar na rua. Cuidado também com a cor da sua roupa.
Já houve época em que no almoço da família discutiam-se livremente diferentes propostas políticas, cada um defendendo a que mais lhe agradasse. A discussão era embalada por riso, ironia e apelidos sarcásticos. Hoje as discordâncias são resolvidas à bala, muitas vezes de forma letal. O sincretismo religioso também era mais respeitado. Hoje religiões de matrizes africanas vivem ameaçadas, terreiros são destruídos e lideranças religiosas são assassinadas.
Por que a mudança?
Ora, porque podemos aprender a amar ou a odiar, conforme sejamos ensinados. O discurso de ódio tem forte apelo nas redes sociais. Preconceito e misoginia criam adeptos furiosos. Não é de hoje que os discursos vêm se tornando agressivos, destrutivos. No trânsito, a intolerância beira a brutalidade. A grosseria é vista como poder. A hostilidade e falta de educação são imitadas. Dessa forma, a fina camada de civilidade que protege a interação social fica permeável à selvageria generalizada.
Globalmente o ódio vem sendo fomentado, pois gera lucro midiático. Ódio às diferenças, às divergências, às instituições, à imprensa profissional, à ciência, à cultura, às mulheres, aos negros, aos pobres. O propósito é plantar o medo, criar inimigos, gerar insegurança.
Discutir política,vale lembrar, não é discutir esquerda, centro, direita, extrema direita. Tampouco é discutir partido político. Menos ainda é discutir líderes políticos. Conversar sobre política é definir como queremos viver. Devemos respeitar divergências ideológicas? Convém lutar para reduzir as desigualdades sociais? Como agir para acabar com o racismo? Como promover políticas públicas? Devemos priorizar saúde e educação universais? Precisamos fornecer garantias aos trabalhadores? Minorias étnicas, mulheres e grupo LGBTQIA+ devem receber tratamento igualitário nas práticas sociais? Devemos nos comprometer com pautas ecológicas? Democracia ou ditadura? Avanços ou retrocessos? Civilização ou barbárie?
Após as respostas, vamos à escolha política.
* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

