Rui Flávio Chúfalo Guião *
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Tenho o hábito de caminhar de manhã nas ruas do condomínio onde moro e percebo que a presença de outros caminhantes é diferente nos dias da semana e nos domingos.
Nos dias úteis, as ruas estão vazias de caminhantes, talvez pelo fato de eu me permitir caminhar mais tarde, uma vez que não tenho mais atividades operacionais nas nossas empresas.
É interessante observar o que encontro pelos caminhos. Em primeiro lugar, o alarido das maritacas e papagaios, que passam em voo rasante e abafam o som persistente das rolinhas, com seu “fogo-apagou”. Outro dia, um curicaca pousado no alto de uma torre de energia, reclamava quando eu passava embaixo.
As flores de inverno enchem o condomínio: são os ipês amarelos, que já substituíram os rosas, a flor-de-são-miguel, com sua presença azul, as primaveras vermelhas e de várias cores, que insistem em despencar do alto dos muros. Agora, enfrentam a concorrência da congeiarosa, um maciço solene e encantador. Não ficam atrás das justícias com grande flores vermelhas, que cobrem o muro de várias casas e o contraste verde-azul das inúmeras tumbérgias que,podadas, se agarram nas cercas.
Depois, é o trânsito intenso de prestadores de serviços : caminhonetes cheias de escadas, materiais para construção, estruturas para levar vidros e até um simpático leiteiro, que distribui seus produtos aos moradores, trazidos em veículo com moderna carroceria refrigerada. Ele sempre me lembra dos tempos antigos, quando o leite era deixado na soleira das portas, em vidros cheios e trocados diariamente por embalagem vazia, deixada na noite anterior.
Também tem os assopradores de calçadas e das ruas que se enchem de folhas derrubadas pelo grande jardineiro, que é o vento, embora neste ano não ter sido tão constante como antes e substituído por fortes ventanias que causaram grandes estragos na cidade.
As sarjetas estão cheias de galhos, cortados por profissionais que sobem em suas escadas e vão desbastando a galharia.
Dois passeadores de cães levam suas duplas pelas ruas e quando algum cachorro rosna ao me ver, logo interferem e calam os animais.
No domingo, entretanto, o panorama é outro. Lá vem o atleta sem camiseta, tomando sol e correndo ao som de vistosos fones de ouvido. Depois, o casal que caminha em passos sincronizados, mostrando a união entre eles. A senhora idosa que caminha com dificuldade, apoiada por sua cuidadora, será que ela já caminhou um dia com vigor e elegância e agora procura levar seus dias com as limitações de sua idade?
Algumas famílias trazem seus filhos, que brincam com bicicletas e patinetes, enfrentando as subidas do condomínio. De vez em quando, um pequeno kart, dirigido por um adolescente e assistido por sua mãe, enche o vazio com seu ruído baixo.
Lá vem também o vizinho com barba de Papai Noel, carregando seu cantil e ladeado por seus três filhos já adultos, conversando sem parar.
É um microcosmo interessante este que eu vejo diariamente nas minhas caminhadas.
* Advogado, empresário, Presidente do Conselho do Grupo Santa Emília, Secretário-Geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

