Roberto Tardelli *
Havia um menino que brincava no Beco das Cabras. Corria descalço por uma terra que não sabia o próprio destino: ali, onde hoje passa, pujante, a Avenida Francisco Junqueira. Esse menino se alfabetizou no Grupo Escolar Guimarães Júnior, juntando sílabas como quem junta tesouros, e viveu a adolescência no Otoniel Motta, quase sempre dentro da biblioteca. Foi lá, entre as estantes da Dona Francisca, que Hesse, Huxley, Sartre, Cortázar, Machado, Graciliano e Drummond me ensinaram o que nenhum regulamento ensina: que a ética é, antes de tudo, a capacidade de se colocar no lugar do outro.
Depois veio a Faculdade de Direito Laudo de Camargo. Eu nem sabia quanto era arriscado estudar Direito naqueles tempos sombrios da ditadura militar, quando falar em liberdade podia custar caro. Ribeirão era outra cidade. Ninguém imaginava que um dia seria sede de uma região metropolitana de dois milhões de pessoas, chamada de Capital do Agronegócio.
Foi aqui que me tornei promotor de Justiça da Infância e da Juventude. E foi aqui que conheci, de perto, a miséria do fosso da desigualdade econômica, que tiraniza as camadas mais vulneráveis da população. Vi crianças machucadas pela violência e pelo abandono. Ao lado do juiz José Carlos Sobral e do jornalista Morandini, ajudei a implantar o Estatuto da Criança e do Adolescente e a criar um centro de atendimento a crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos e abuso sexual. Foi onde e quando entendi o significado e a profundidade do artigo 129 da Constituição Federal. Compreendi, em Ribeirão Preto, o significado histórico de ser um agente político.
Andei pela vida. Fiz o caso mais rumoroso da história deste país e, um dia, bati asas para a advocacia, onde luto pela liberdade como quem, faminto, briga por um pedaço de pão.
Agora volto escritor. “O Espelho das Bruxas”, publicado pela Emó Editora, é um romance que fala de dor, mas também de transformação. Acompanha Lilith e Circe, duas mulheres marcadas por traumas antigos que encontram, no eco de um crime bárbaro, a chance de enfrentar o que carregam. Fala de pessoas comuns e de dores lancinantes, que nada têm de comuns: o abuso na infância, a violência contra a mulher, o julgamento paralelo das redes. É ficção, mas nasceu de tudo o que vi, inclusive aqui.
Venho lançar o livro. Venho com ele debaixo dos braços, de mãos dadas com minha mãe, Dona Selva, meu pai, Jayr, e meu irmão amado, Renato, meu professor de solidariedade humana. Trazer este livro a Ribeirão é como devolver à Dona Francisca um pouco das centenas de livros que ela me ofereceu.
Quero encontrar os amigos, revê-los, abraçá-los. Mesmo aqueles que já não me aturam, porque também para esses guardo as melhores lembranças.
Eu nunca me senti saindo de Ribeirão Preto. Por isso, voltar nunca foi exatamente voltar. É chegar.
Espero vocês no dia 17 de outubro, a partir das 15h, na Livraria da Vila, Shopping Iguatemi.
* Advogado criminalista, ex-procurador de Justiça de São Paulo e escritor

