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O Segredo dos Superidosos: Quando a Memória Desafia o Tempo

José Aparecido Da Silva*

 

Em uma manhã ensolarada de domingo, entre uma xícara de café fresco e o folhear das páginas do jornal, é quase inevitável não nos pegarmos pensando na passagem do tempo. O envelhecer, para a maioria de nós, sempre esteve associado à ideia de desaceleração, ao esmaecer das lembranças e à perda gradativa daquela agilidade mental que marcou a nossa juventude. No entanto, a neurociência moderna nos presenteia com uma descoberta fascinante e profundamente esperançosa: a existência dos “superidosos”. Assim são chamadas as pessoas com 80, 90 anos ou mais que exibem uma capacidade de memória episódica — aquela habilidade preciosa de guardar fatos, histórias e detalhes do cotidiano — absolutamente idêntica, ou até superior, à de adultos saudáveis na casa dos 50 anos. Eles não apenas se lembram com clareza de onde deixaram as chaves; eles recordam conversas detalhadas, aprendem novos caminhos e mantêm a mente afiada como se o relógio biológico houvesse decidido fazer uma pausa prolongada.

Ao olhar para dentro do cérebro desses octogenários extraordinários, a ciência encontrou marcas surpreendentes. Enquanto o cérebro humano tende a perder um pouco de seu volume natural ao longo das décadas, o dos superidosos resiste bravamente ao tempo. Uma região em especial — responsável por integrar a nossa atenção, o foco e a regulação das emoções — permanece espessa, forte e incrivelmente ativa. Além disso, observou-se nesses cérebros uma abundância impressionante de células altamente especializadas, conhecidas como neurônios de Von Economo. Essas estruturas funcionam como verdadeiras rodovias expressas de comunicação neural, permitindo que a intuição, o afeto e a rapidez de raciocínio fluam sem engarrafamentos. Mas o que faz alguém se tornar um superidoso? Seria pura sorte na roleta da genética? A resposta da ciência é um inspirador “não apenas”. Embora a hereditariedade forneça uma boa base de proteção, é o modo como escolhemos viver que realmente acende a centelha da resiliência mental. Os superidosos compartilham marcas comuns no estilo de vida: praticam atividades físicas com regularidade, alimentam-se bem, priorizam o sono reparador e, acima de tudo, nunca deixam de desafiar o cérebro. Eles aprendem novos idiomas, tocam instrumentos, leem com paixão e envolvem-se em projetos comunitários.

Existe, contudo, um ingrediente secreto que salta aos olhos nos estudos neuropsicológicos: o afeto e a convivência social. Os superidosos são pessoas profundamente conectadas aos outros. Cultivam laços de amizade quentes, mantêm o senso de humor vibrante e possuem uma enorme capacidade de empatia. O cérebro, afinal, é um órgão social. Ele floresce no encontro, na conversa fiada da calçada, no abraço da família e no compartilhamento de vivências. Em um país como o Brasil, onde a população idosa cresce a passos largos — e onde a nossa legislação já reconhece uma prioridade especial para aqueles que ultrapassam os 80 anos —, compreender a riqueza dos superidosos é um convite para redefinirmos o próprio conceito de envelhecer. Ficar sênior não precisa ser o apagar das luzes, mas sim a conquista de um palco iluminado pela maturidade e pela lucidez.

Neste domingo de sol, a lição que fica é tão simples quanto profunda: nossa mente é um jardim que pode continuar a dar frutos e flores viçosas em qualquer estação da vida. Bastam a curiosidade de aprender, o movimento do corpo e a coragem de manter o coração sempre aberto para os outros. Que possamos, todos nós, cultivar hoje o superidoso que desejamos ser amanhã.

 

Professor Titular Sênior da USP-RP*

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