Tribuna Ribeirão
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E que vitória!

Raquel Montero *
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No Brasil, no primeiro turno, Flávio teve 47,03% dos votos válidos (total de 56.104.503). Lula teve 45,16% dos votos válidos (total de 53.879.538). A abstenção foi de 21,08% (total de 33.469.244), e no segundo turno, Lula teve 51,79% dos votos válidos (total de 64.256.232), e Flávio teve 48,21% dos votos válidos (total de 59.826.041). A abstenção foi de 19,22% (total de 30.509.005).

Esses são os números. Agora vamos para além dos números e o que eles significam. Significam vitória. E que vitória! De virada ainda. Significam mais uma prova da força que tem a união de pessoas mobilizadas em um mesmo objetivo.

Não houve a mesma mobilização pró-Lula no primeiro turno, e talvez por isso o resultado do primeiro turno. Acredito, que não por acaso, mas, sim, como mais uma prova do poder da mobilização coletiva, o canal de WhatsApp, “Exército do Lula”, somava até o sábado antes das eleições do segundo turno, quase 11 milhões de pessoas. Quantidade que também corresponde aos votos que Lula recebeu a mais no segundo turno, comparado com o primeiro turno. Coincidência? Pode ser, pode não ser…

Foi a partir da surpresa negativa do resultado do primeiro turno que as mobilizações coletivas pró-Lula aumentaram e se intensificaram nas ruas e nas redes sociais da internet. E aqui temos mais um significado; o adversário foi subestimado. Não se faz isso. A soberba precede a queda.

As ruas foram ocupadas por um mar vermelho de gente, mostrando visualmente que Lula estava liderando nas ruas. A internet, antes mais dominada por mobilizações pró-Flávio, também foi tomada pelas mobilizações pró-Lula, a partir do comando de Janones sobre o Exército do Lula no WhatsApp. E aqui temos outro significado; a campanha de Lula estava cometendo erros graves de comunicação e mobilização. Teve que vir alguém de fora (o Janones), para escancarar isso.

Mas, contestando isso, ainda tinham as pesquisas eleitorais que destoavam dessa liderança. E aqui temos mais um significado; pesquisas podem estar desconectadas da realidade, e podem, também, contribuir para o resultado oposto do que apontam, como aconteceu agora.

Ninguém me contou, eu vi. Estive como delegada voluntária do PT durante toda a eleição do dia 25, acompanhando e fiscalizando as eleições em Ribeirão Preto, cidade onde moro e voto, e testemunhei o engajamento das pessoas até o grande finale, que se dá com o voto digitado na urna, momento onde todos os esforços se concretizariam. Ora, de nada valeriam os esforços se no dia de votar as pessoas não comparecessem.

Na escola em que voto, o colégio particular Santa Úrsula, predominantemente bolsonarista (cerca de 65% dos votos válidos foram para Flávio), vi pessoas vestidas de vermelho e com adesivos do Lula nadando contra aquela corrente, de quem demonstra convicção no que está fazendo. Na escola estadual Sebastião Fernandes Palma, onde estudei a maior parte do ensino básico, bem como na escola estadual Otoniel Mota, vi pessoas idosas, pessoas com deficiência, com cadeiras de rodas, com bengalas, tendo que, apoiadas em outra pessoa ou levantadas por outra pessoa, passarem por degraus de escada para chegarem até a urna.

Uma das idosas, indagada pelo filho se não preferia ir embora e pagar a multa, respondeu; “Eu quero votar”, e apoiada no filho, subiu os degraus de escada para ir votar. Não sei em quem iam votar. Sei que todas as pessoas têm o direito de votar, e ver as pessoas votarem por querer votar, e enfrentando obstáculos às suas deficiências físicas, é ver a cidadania se realizando diante de nossos olhos.

Vi presidentas de seções eleitorais agindo como verdadeiras defensoras do exercício correto, individual e secreto do voto, me mostrando nas atas que seriam entregues à Justiça Eleitoral as situações que tiveram que enfrentar para defender a lisura e a isonomia no procedimento.

Sim, significa a vitória da mobilização de um povo objetivando a defesa de uma mesma causa. A causa era a defesa da Educação, da Saúde, da Ciência, da soberania nacional, do pluralismo religioso, do Estado Laico, dos direitos, das mulheres, da juventude, das crianças, das pessoas idosas, das pessoas negras, de indígenas, da diversidade sexual, do patrimônio público, da democracia, da natureza, da paz, da igualdade, da justiça, da dignidade.

E Lula, o eleito, era o representante dessa causa. A defesa da causa ainda contou com a juventude. O representante da causa, com quase 81 anos de idade, com a sabedoria, maturidade e experiência que só o tempo agrega. Junto, a juventude, com a potência de uma esperança idealista que ainda não viveu as máculas do sistema, e com a efervescência da novidade, de quem pela primeira vez estava tendo contato com a política e sentindo na própria vida o poder que tem para contribuir com as decisões sobre causas coletivas. A mistura foi perfeita. E aqui temos mais um significado; a diversidade traz em si harmonia, equilíbrio, energia, esperança, conhecimento e experiência, elementos essenciais para viver, inclusive para vencer uma eleição.

* Advogada, pós-graduada em leis e direitos

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