Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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Você está sentado sozinho em uma mesa de quatro lugares. É uma praça de alimentação em um shopping lotado e não há mais mesas vagas. Um desconhecido se aproxima com uma bandeja,aponta para uma das cadeiras vazias e diz: “Tem alguém sentado aí?”. Ora, desconsiderando algum fantasma cansado, o próprio interlocutor pode olhar e ver que não há ninguém sentado ali. Portanto, é óbvio que a pergunta extrapola o sentido literal. Nesse contexto, a indagação equivale a um pedido de compartilhamento de mesa.
É a pragmática que analisa a relação entre o sentido eo contexto. Essa área dos estudos linguísticos considera como o interlocutor infere o sentido, tendo em contafatores culturais, sociais e situacionais. Depende de quem diz o quê, para quem, onde. “Não tenho prática em cirurgia” pode ser um alento na fala de um paciente que enfrenta o bisturi pela primeira vez, mas pode ser o gatilho de alerta na fala do médico prestes a iniciar a operação.
O conhecimento pragmático avança pela percepção de ironias, subentendidos, metáforas, eufemismos, hipérboles,pressuposições etc. A observação de que está muito quente, feita numa sala pequena e abafada, pode ser um pedido indireto para que a janela seja aberta ou o ventilador ligado, a depender da situação. Se alguém pergunta “Você gostou do meu vestido?”e a resposta é “Conheço uma loja que tem outros modelos”, o respondente parece não ter aprovado a vestimenta. É fácil perceber que a compreensão das mensagens implícitas, do que está por trás das palavras, amplia as habilidades comunicativas.
Nesse contexto de mensagens camufladas, a conversa pressupõe uma cooperação mútua para que possamos nos entender. No mínimo, precisamos falar a mesma língua. Além disso, devemos compartilhar propósitos colaborativos para que a comunicação possa ocorrer. Por exemplo: não adianta utilizar palavras que o interlocutor desconhece. Então, existem regras tácitas para que a comunicação seja eficiente, conforme propostas pelo filósofo da linguagem Paul Grice. Ele estabeleceu quatro máximas conversacionais, a saber.
A primeira diz respeito à QUANTIDADE: dizer o que é necessário a cada comunicação específica. Zelar pela informação requerida, mas sem dizer menos, nem mais.
A QUALIDADE refere-se a construir a fala baseada em verdade. Além de não mentir, a proposta é trazer informações sobre as quais há provas.
A terceira máxima diz respeito à RELAÇÃO ou RELEVÂNCIA. Significa basicamente manter o foco no assunto, sem tergiversar.
Por fim, há o MODO ou a MANEIRA. É preciso ser claro e manter princípios lógicos.
Se observarmos nossa comunicação diária, percebemos que essas máximas às vezes são violadas. No geral exageramos na quantidade e repetimos várias vezes a mesma informação, para evitar possíveis erros interpretativos ou espaços vazios socialmente perturbadores.A qualidade também fica comprometida quando impera o desejo de se mostrar por dentro do assunto, mais inteirado do que o interlocutor. Informações incorretas, como afirmar que durante o feriado haverá transporte público gratuito, sem ter certeza desse fato, podem ser desastrosas. No caso da mentira, o problema é ainda mais grave. É uma violação grave ao sucesso da conversa afirmar o que não se sabe e, mais do que isso, mentir.
Também atrapalha o fluxo da conversa desviar o assunto a todo momento, inserindo novos temas sem relação com o que se apresenta. Quando isso ocorre, o interlocutor tenta maneiras de ligar os temas, busca um sentido para as intervenções e tenta recuperar a relevância da conversa. Finalmente o modo como falamos é bastante decisivo na recepção da mensagem. É possível dizer tudo, mas depende da forma como é falado. Mesmo mensagens difíceis podem ser faladas com respeito, empatia, sem agressão ou humilhação. Vale considerar a entonação, as palavras escolhidas, a intenção.
As máximas de Grice podem ser violadas intencionalmente. O exemplo clássico é o da ironia, quando alguém se refere a um dia de chuva forte como “que dia maravilhoso para um piquenique”, ou rotula uma observação rasteira como “nossa, você é um gênio”. Toda vez que alguma máxima é quebrada – falar demais ou de menos; trazer inverdades à comunicação; mudar de assunto; utilizar ambiguidades –, o interlocutor busca um sentido implícito, algo que funcione para além do literal.
Esses conhecimentos garantem desenvoltura na comunicação, pois o interlocutor consegue construir mensagens mais claras e relevantes, além de perceber veracidade ou subterfúgios na fala de terceiros.Saber conversar faz parte das habilidades indispensáveis para transitar com desenvoltura nas diferentes práticas sociais, além de ser um traço indispensável no ambiente corporativo. Como tudo na vida, é possível aprender e aprimorar.
* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

