Nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro chegou a se autoproclamar presidente eleito, líder do Brasil e da oposição
Aliados e ex-aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL) têm se manifestado em favor do resultado das eleições e contrários à postura do parlamentar e ex-candidato à Presidência da República, que se recusou a reconhecer que foi derrotado, no segundo turno, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Os posicionamentos se tornaram mais enfáticos após a fuga para os Estados Unidos e a divulgação da carta golpista, na qual Flávio chegou a se autoproclamar presidente eleito, líder do Brasil e da oposição. O isolamento político do senador cresceu.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, reprovou nesta quinta-feira, 29 de outubro, a carta com teor golpista. “Ninguém quer ter problema, ninguém aprova essa situação. O Flávio passou por uma situação difícil, compreendemos, mas não aprovamos (a carta), queremos tocar o país para frente”, declarou após visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A declaração mostra que a cúpula do PL, assim como outras legendas, reprovaram o conteúdo do documento, no qual Flávio não reconhece o resultado das urnas e se autodeclara “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”.
Valdemar disse não ter tratado sobre o assunto com Bolsonaro, mas afirmou que o ex-presidente não sabia que Flávio deixaria o Brasil. “Não falou para o pai. Nem o Bolsonaro sabia que ele ia, ninguém sabia. Eu também não sabia”, falou. Questionado o que tinha achado da carta de Flávio, ele respondeu: “Não gostei”.
Derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial do último domingo (25), o senador fugiu para os Estados Unidos dois dias depois e anunciou, já em solo americano, que se considera “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Numa segunda versão, mudou o termo para ‘líder do Brasil’.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes autorizou na quarta-feira (28) que Valdemar visitasse Bolsonaro. O pedido foi feito pelo ex-presidente, alegando “necessidade de diálogo direto” após o filho Flávio deixar o país sem entregar os passaportes, como tinha sido determinado pelo Supremo.
Carta golpista – A carta, divulgada por apoiadores e pelo próprio senador na quarta-feira teve três versões. A primeira tinha um brasão escrito “Estados Unidos do Brazil”, com o nome do país escrito em inglês e a data de 15 de novembro de 1889. O emblema remonta à Proclamação da República e vigorou até 1968.
O manifesto foi enviado pelo comunicador Paulo Figueiredo. Quinze minutos após distribuir o texto, ele divulgou uma nova versão, atualizando o brasão com nome correto do país. Flávio abrandou o tom em uma terceira versão, publicada no X às 17h51, autointitulando-se “o líder do Brasil”.
“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão”, escreveu o senador nas duas primeiras versões da carta.
Flávio chamou o resultado do segundo turno de “fraude eleitoral”, sem apresentar provas, repetindo o discurso do pai Bolsonaro em 2022. O petista foi reeleito com 51,78% dos votos válidos, ante 48,22% de Flávio – por uma diferença de 4,4 milhões de votos.
Também caracterizou como “atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula” a prorrogação em duas horas do horário de votação definida pelo ministro do STF Cristiano Zanin, após pedidos das duas chapas, PT e PL. O senador disse que a decisão acrescentou dez milhões de votos a Lula. Tanto a campanha de Lula quanto a de Flávio pediram a prorrogação do segundo turno.
A vitória de Lula foi reconhecida pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, na noite do último domingo. O PL e o vice de Flávio na chapa derrotada, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), também atestaram o resultado das urnas.
Partidos como União Brasil, MDB e PSDB se manifestaram contra o comportamento do senador e reafirmaram a confiança nas urnas, no processo eleitoral e no resultado das eleições. O União Brasil também reiterou a confiabilidade das urnas, a lisura do processo eleitoral e afirmou que o resultado das eleições deve ser respeitado
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi outro aliado de Flávio a se posicionar em favor do resultado das urnas. Em nota, afirmou compreender a indignação do senador, mas destacou que o momento exige “responsabilidade, serenidade e a construção de uma oposição forte”.
Até mesmo o bispo JB Carvalho, líder da Comunidade das Nações, igreja de Brasília frequentada pelo senador, divulgou nesta quarta-feira (28) uma mensagem em defesa do resultado das urnas, que levou à eleição do presidente Lula.
“As eleições terminaram. Não tem terceiro turno. Vida que segue!”, disse o pastor nas redes sociais. “Vamos viver a vida. Pare de profetizar o caos. Deus dará a cada um segundo suas obras. E Ele terá misericórdia do Brasil”.

