Tribuna Ribeirão
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Carta à minha filha

André Lucirton Costa *

Olhando para a minha história, vejo os desafios enfrentados, as decisões tomadas e os caminhos percorridos.

Tinha quatro anos quando aconteceu o golpe militar de 1964, sete quando, em 1968, a resistência à ditadura se encontrou com a força da contracultura e com novas formas de contestação. Cresci sob os efeitos daqueles acontecimentos e da luta de quem enfrentou a repressão.

Nos anos 1980, a minha geração ganhou as ruas e participou da luta pela redemocratização. Vieram as Diretas Já, a Constituição de 1988 e a implantação do regime democrático. Construímos a democracia: uma conquista coletiva, universal e civilizatória, fundamentada no Estado de Direito (governo limitado por leis e normas constitucionais), no pluralismo (coexistência de diversas ideias, partidos e grupos sociais) e na soberania popular (princípio de que o poder emana do povo).

Contribuímos para criar o SUS, universalizar o acesso à educação, fortalecer as universidades e a pesquisa e desenvolver políticas públicas em diferentes áreas. Ousamos discutir o papel do Estado e defender uma economia de mercado regulada. Fizemos muito, mas sabíamos que ainda havia muito a transformar.

Contudo, o resultado da eleição de presidente de 2026 não teria acontecido sem sua geração. Vocês levaram adiante os conceitos e ampliaram as mudanças, agora também no comportamento, no respeito e na convivência. Fortaleceram as pautas identitárias e a diversidade, o orgulho e o letramento LGBTQIA+ e deram visibilidade às identidades e relações não binárias. Ajudaram a mostrar que piadas e programas de televisão homofóbicos e racistas, antes tolerados por muitos de nós, não podiam continuar sendo tratados como naturais.

Vocês renovaram o feminismo e deram mais força ao combate ao racismo estrutural. Ampliaram a presença de pessoas negras, indígenas e de outros grupos historicamente excluídos na política, na mídia e em posições de liderança. As cotas nas universidades e nos concursos públicos, assim como a cobrança por diversidade, equidade salarial e oportunidades no mercado de trabalho, fazem parte dessa transformação.

Também ajudaram a falar abertamente sobre saúde mental, ansiedade, depressão e esgotamento. Questionaram a ideia de viver apenas para trabalhar e defenderam mais equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal. Impulsionaram escolhas de consumo mais conscientes, a sustentabilidade, o vegetarianismo, o veganismo e a valorização de roupas e objetos de segunda mão (brechós).

Uma geração ajudou a construir o caminho para a democracia e a ampliar direitos; a outra levou adiante essa construção, trazendo novas pautas e formas de mudar a sociedade. Tenho orgulho do que fizemos e gratidão pelo que vocês estão fazendo. O que aconteceu em 25 de outubro mostra que a democracia só continua viva porque a política hoje é feita de forma diferente, fora das burocracias dos partidos, em redes e mais próxima do mundo real. Muito obrigado.

* Professor FEARP/USP e pai da Carol

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