Tribuna Ribeirão
Esportes

A pista que forma cidadãos

Projeto Atletismo e Cidadania oferece aos jovens uma oportunidade no esporte | Divulgação/AAARP

Por Hugo Luque

Na pista de atletismo, o relógio é um juiz implacável. Toda a dedicação se resume a frações de segundo e o menor erro tem um grande peso. Ainda assim, num ambiente de tanta cobrança e competição, o impacto humano gerado a longo prazo na vida de quem corre é o que mais importa. Em Ribeirão Preto, o ex-atleta, fisioterapeuta e treinador Sidnei Avelino dos Santos tem como missão moldar as futuras gerações de atletas e cidadãos.

Campeão mundial estudantil nos 110 metros com barreiras em 1979 e nome histórico das pistas brasileiras, Avelino carrega na bagagem a autoridade de quem viveu o esporte em sua capacidade máxima. Mas foi ainda em meados dos anos 1980, ao observar o esvaziamento progressivo da modalidade no município, que sentiu a necessidade de assumir um novo papel.

“A minha vivência no atletismo me ajudou a enxergar o esporte de uma maneira diferente. Essa percepção ocorreu, principalmente, em meados da década de 80, quando eu percebi que as categorias de base do atletismo de Ribeirão Preto estavam, cada vez mais, com menos praticantes. Então, percebi a necessidade de o atletismo também ir para outras comunidades, para se fazer uma massificação da prática do atletismo”, relembra Avelino.

Dessa inquietação germinou a Associação dos Amigos do Atletismo de Ribeirão Preto (AAARP) e o projeto Atletismo e Cidadania, uma iniciativa que, há mais de três décadas, utiliza o movimento como pretexto para formar cidadãos. Todo o processo, é claro, passa pelo estudo.

Se a paixão pela modalidade foi o motor inicial, a base científica tornou-se o alicerce para moldar talentos. Graduado pela Universidade de São Paulo (USP), Avelino uniu a vivência de atleta ao conhecimento oriundo dos livros de anatomia, fisiologia, biomecânica e psicologia para entender os limites da máquina humana.

“Essas informações são de suma importância no treinamento de atletas, principalmente no alto rendimento, porque esse atleta trabalha geralmente na capacidade máxima. Quando a gente trabalha na capacidade máxima, explorando isso, você corre o risco de ultrapassar determinados limites. Isso acontecendo, há o risco de machucá-lo”, explica o treinador.

O conhecimento acadêmico serviu também para compreender que os limites do esporte não são apenas os físicos, mas também os mentais.

“É bem sabido que, no esporte de alto rendimento, vários atletas são acometidos por várias lesões, principalmente musculares e articulares, sem contar a pressão psicológica. Uma competição gera um estresse psicológico muito grande. A psicologia também me trouxe informações de maneiras aprofundadas. Essas áreas acadêmicas contribuem e já contribuíram bastante no treinamento do atleta de alto rendimento”, destaca.

Formador de cidadãos

A filosofia aplicada no dia a dia da Cava do Bosque e da pista da USP, locais que recebem o projeto, tem como pilar um conceito claro: o atletismo é um meio, não o fim. Na visão do idealizador, os valores exigidos para encarar uma rotina dura de treinos são os mesmos necessários para superar os reveses da vida adulta.

Sidnei Avelino usa seu conhecimento para formar novos talentos | Foto: Alfredo Risk

“O projeto Atletismo e Cidadania tem como objetivo principal contribuir na formação do cidadão usando o atletismo como instrumento de transformação. Quando uma criança, um adolescente ou mesmo um adulto chega para a prática dos treinamentos em atletismo e, posteriormente, passa a competir regularmente, ele tem de desenvolver alguns princípios e valores que são de suma importância: disciplina, enfrentamento de desafios, autossuperação, desenvolvimento da autoimagem, respeito, aprender a lidar com sucesso e insucesso, com a perda e com a vitória”, reflete Avelino.

Essa dinâmica exige uma rotina de superação diária que molda o caráter dos alunos e prepara os jovens para as frustrações inerentes à vida em sociedade.

“A vida nos traz isso. A gente passa por vários momentos de decepção e frustração, enfrentamento de dificuldades. A gente tem de ter esses princípios e valores bem estabelecidos dentro da gente. Isso, o esporte e o atletismo ensinam muito. É estar todo dia no treinamento, com o corpo bem à vontade para isso. Quando digo isso, é no seguinte sentido: tem dia que o corpo está cansado e tem um treinamento difícil, mas a gente tem de se superar. Tem dia que a gente tem dor, mas tem de se superar para treinar. Tem vezes que a gente vem triste, mas é dia de competição, então tem de superar a tristeza e competir. São esses valores que o atletismo contribui no processo de formação da pessoa”, afirma.

Histórias que ecoam

Ao longo de mais de 30 anos, o Atletismo e Cidadania possibilitou inúmeras histórias marcantes. Entre tantas trajetórias, como as Maurren Maggi (medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008) e de Fernando Carvalho Ferreira (representou o Brasil nos Jogos de Tóquio e Paris), uma das mais emblemáticas para Avelino é a de Zileide Cassiano da Silva.

A atleta realizou a iniciação esportiva aos 9 anos e, no decorrer de sua caminhada, recebeu o diagnóstico de um distúrbio cognitivo. O enquadramento no paratletismo abriu portas para marcas históricas: Zileide tornou-se bicampeã mundial e conquistou a medalha de prata nos Jogos Paralímpicos de Paris, em 2024.

“Durante sua trajetória esportiva dentro do atletismo, ela foi diagnosticada com um distúrbio cognitivo. Com o diagnóstico, ela pôde se enquadrar no paratletismo. Essa capacidade de transformação e de superar um diagnóstico como esse é um grande exemplo do que o esporte pode proporcionar, sobretudo o atletismo”, comenta o orgulhoso treinador.

Além do alto rendimento, ele destaca o ciclo social que se completa no projeto. “Temos também situações de atletas que começaram a praticar atletismo na adolescência e que vinham de comunidades com alta vulnerabilidade social, mas que atingiram a formação acadêmica, foram para a universidade e são grandes profissionais. Inclusive, dentro do projeto, temos monitores e orientadores técnicos que dão o treinamento de atletas de alto rendimento. São exemplos que o projeto tem proporcionado.”

Mas nada vem fácil. Formar um atleta de ponta no interior paulista exige paciência e, por conta disso, o processo pedagógico do programa precisa ser estruturado. São três etapas: iniciação (lúdica, nos polos dos bairros), formação (rotina regular na Cava do Bosque) e rendimento (foco em grandes torneios).

“Para lapidar esses talentos, é necessário um trabalho árduo de paciência e de espera também. Para que os atletas cheguem a uma outra fase, que é a de competição e rendimento, eles precisam treinar de três a cinco anos, no mínimo, para que os resultados apareçam. Quando vai se pensar numa competição importante como um Campeonato Mundial e uma Olimpíada, às vezes demanda de sete a dez anos de treinamento”, detalha.

Zileide Cassiano é um dos vários cases de sucesso do treinador | Foto: Guilherme Sircili

A caminhada, contudo, esbarra nas limitações financeiras e logísticas do esporte nacional. Garantir materiais, sapatilhas e até a condução para que os jovens da periferia cheguem aos locais de treino é o principal obstáculo.

“O fator econômico é complicado, um grande desafio. Uma outra situação é fazer com que crianças e adolescentes que são descobertos nos polos de iniciação e atletismo que temos em lugares diferentes da Cava do Bosque cheguem à Cava. Muitas vezes, a gente descobre uma criança numa escola ou em um bairro. Ali, ela inicia o treinamento, mas tem dificuldade, sobretudo econômica, para chegar à Cava do Bosque”, relata Avelino.

“Vejo a importância de uma cidade ter uma política de esporte voltada também para o esporte de rendimento. Claro, o esporte pode ser praticado com caráter competitivo, educacional ou participativo, mas o esporte de rendimento envolve dinheiro. Sem recursos financeiros, fica difícil tocar o esporte de competição”, acrescenta.

Um legado vencedor

Para os jovens que chegam às competições de elite, o desafio migra para o controle emocional. Lidar com marcas e cobranças por resultados exige transparência por parte da comissão técnica, mas também resiliência no aspecto mental dos atletas, que são treinados desde cedo a lidar com as críticas construtivas.

“É trabalhado com diálogo, com conversas, sobretudo trazendo dados da realidade para o atleta. Isso vale para quando perde e para quando vence, porque tanto ao perder como ao vencer, o atleta precisa saber lidar com a situação. Tanto o insucesso como o sucesso trazem responsabilidades”, ressalta o treinador. “Eu sempre digo que o atleta de rendimento que não suporta pressão não deve ir para uma competição. Somente os atletas que suportam grande pressão psicológica vão conseguir se sustentar”.

Ao olhar para a própria história, desde a época em que aguardava a partida para largar em disparada rumo à linha de chegada até a gestão diária de vários jovens, Sidnei Avelino enxerga seu verdadeiro legado na continuidade do movimento e na criação de oportunidades.

“Eu gostaria de deixar como legado algumas mensagens. Que a criança, o adolescente ou o adulto não desista dos seus sonhos, que corra atrás dos objetivos de vida e estabeleça metas para alcançar esses objetivos. Acima de tudo, que não desista frente aos desafios da vida, às dificuldades que aparecem, aos insucessos e aos fracassos”, sintetiza.

“Que nós possamos, como seres humanos, continuar criando oportunidades para que o talento se desenvolva. A sociedade precisa dar oportunidades para seus integrantes. Que a gente continue criando oportunidades dentro do esporte e do atletismo para que as pessoas pratiquem atividades. Isso é importante em todos os setores da sociedade”, conclui o treinador.

Inscreva-se em nosso Canal no Whatsapp e fique por dentro de tudo que acontece na região.
Clique Aqui!

VEJA TAMBÉM

Botafogo repete 1º turno e bate América-MG de virada

Hugo Luque

Comercial empata com União São João

Hugo Luque

Botafogo recebe América-MG pela Série B

Redação

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade. Aceitar Política de Privacidade