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Cinco feridas e a sexta esperança – A jornada do ego humano


Conceição Lima *:

O ser humano nasce nu, frágil, entregue ao mundo. Não tem garras, carapaça ou voo, apenas pele fina, sensível, exposta.Tem olhos que choram, mãos que tremem, coração que se parte com palavras. Sua primeira linguagem é a vulnerabilidade: antes de falar, sente; antes de andar, depende; antes de escolher, teme. O filho do Homem é o mais vulnerável de todos os animais da criação. Enquanto outras espécies logo caminham, caçam ou se defendem, o bebê humano precisa de proteção constante por anos a fio.

Essa fragilidade, paradoxalmente, abriu espaço para o progresso, a cultura e a socialização. Mas não é apenas física: somos vulneráveis emocionalmente, porque amamos, confiamos e nos decepcionamos. É nessa abertura que florescem a empatia e a compaixão. Também somos frágeis social e moralmente, capazes de destruir o que criamos, mas igualmente de resistir e transformar. Por fim, há a vulnerabilidade existencial: consciência da morte, da dúvida, da finitude.

A vulnerabilidade não é fraqueza, mas marca de humanidade. É nela que reside nossa capacidade de aprender e reinventar. Para lidar com essa condição, criamos o Ego, uma armadura simbólica que protege, mas também isola. Ele é motor e obstáculo: permite dizer “eu sou”, mas pode aprisionar na vaidade e na ilusão.

Na vida social, o Ego se manifesta como competição e desejo de superioridade. A imagem passa a valer mais que a essência. Religiões e filosofias concordam: o Ego é necessário para a identidade, mas precisa ser educado e refinado. Não é inimigo a ser destruído, mas força a ser iluminada.

Freud chamou de “feridas narcísicas” os golpes sofridos pelo Ego ao longo da história: descobertas que revelaram nossa pequenez diante do cosmos, da biologia e da psique.

O mito de Narciso, apaixonado pela própria imagem, simboliza essa fragilidade: o risco de aprisionar-se na vaidade e na ilusão. Na mitologia grega, Narciso é um jovem de extraordinária beleza que se apaixonou pela própria imagem refletida na água e, incapaz de se afastar dela, definhou até morrer.

Assim como Narciso, o homem construiu uma autoimagem idealizada: centro do universo, criatura divina, racional e superior. Todavia, ao longo dos séculos, foi ferido por sucessivas revelações, em que essa imagem se quebra, revelando nossa fragilidade, limitação e interdependência.

As cinco “feridas” são:

• Cosmológica (Copérnico): a Terra não é o centro do universo e o Homem deixou também de ser o centro da criação. Um dia, o céu deixou de girar ao nosso redor. A Terra, antes palco divino, virou poeira em rotação. O Ego, que queria ser estrela, descobriu-se planeta errante. E nessa queda, nasceu a humildade… Ou a revolta.
• Biológica (Darwin):o ser humano é apenas mais um animal na cadeia evolutiva, somos animais entre outros. Não fomos moldados por mãos celestes, mas por milênios de luta e adaptação. O homem, que se via imagem de Deus, descobriu-se primo do macaco.
• Psicológica (Freud): não somos senhores nem da mente: o inconsciente nos governa. O Ego, que se achava rei, descobriu-se servo de desejos ocultos. O livre-arbítrio tremeu, a razão perdeu o cetro e o ser humano virou enigma.
• Científica (Mazlish):as máquinas se tornaram extensão de nossos corpos, não mais conseguimos sobreviver sem “ferramentas”. Por outro lado, a ciência nos mede, nos calcula, nos lê como códigos; o Ego, que queria ser alma, descobriu-se algoritmo.
• Tecnológica (Kaufman): a Inteligência Artificial chegou sem pedir licença, e nos fez perder a ilusão da exclusividade da linguagem e do raciocínio. Não tem carne, não tem alma, mas escreve, decide, aprende. O Ego, ferido, se pergunta: “Se não sou único na razão, o que me resta?” E talvez descubra que o que nos distingue não é o cálculo, mas o afeto, a dúvida, a poesia.

Essas feridas não são castigos, mas convites à humildade e à reinvenção. O Ego, ferido, pode se fechar ou florescer. Pode virar ponte, poema, silêncio que acolhe. Reconhecer nossas limitações é condição para tocar o outro com mãos limpas e olhos abertos.

O desafio humano não é negar o Ego, mas educá-lo. Sem ele não haveria consciência, mas o excesso narcísico aprisiona e impede a empatia. A maturidade exige equilíbrio entre o “eu” e o “outro”, desejo e ética, afirmação e humildade.

As feridas revelam nossa finitude e urgência de amar, criar e deixar marcas. Elas nos lembram que é preciso abandonar o espelho e olhar para o outro. A grande aventura humana consiste em aceitar nossa complexidade e continuar criando significados, mesmo diante da fragilidade.

Assim, nasce a sexta esperança: reconhecer que, apesar das feridas, podemos transcender o Ego e torná-lo aliado da vida. A vulnerabilidade, longe de ser derrota, é a semente da nossa humanidade.

* Doutora em Letras, com pós-doutorado em Linguística, escritora, conferencista e palestrante, membro eleito da Academia Ribeirãopretana de Letras e da Academia membro fundador da Academia Feminina Sul-Mineira de Letras

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