Brasil assumiu a liderança do ranking dos países com o maior juro real do mundo, com 9,67% ao ano
Apesar das tensões em torno da guerra no Oriente Médio, o Banco Central (BC) cortou os juros pela terceira vez seguida. Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Taxa Selic, juros básicos da economia, em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano. A decisão era esperada pelo mercado financeiro.
Os juros já caíram 0,75 ponto percentual desde março, quando o BC começou um “ciclo de calibração” cautelosa da política monetária, em meio às incertezas sobre os impactos da guerra do Irã na cadeia global de suprimentos, os preços de commodities e a própria inflação.
De junho de 2025 a março deste ano, a Selic ficou em 15% ao ano, o maior nível em quase 20 anos. O Copom voltou a cortar os juros nas duas reuniões anteriores, num cenário de queda da inflação. No entanto, a guerra no Oriente Médio, que se refletiu no aumento dos preços de combustíveis e de alimentos, dificulta o trabalho do comitê.
Juro real – Mesmo com o corte de 0,25 ponto percentual, o Brasil assumiu a liderança do ranking e tem o maior juro real do mundo, formado, entre outros pontos, pela taxa de juros nominal subtraída a inflação prevista para os próximos doze meses. Assim, segundo levantamento compilado pelo MoneYou, os juros reais do país ficaram em 9,67% ano, contra 9,33% do levantamento anterior.
A liderança isola o mercado brasileiro de outras economias emergentes, superando a Rússia, que marca 9,31%, a Turquia, com 5,57%, e o México, com 5,10%. Japão (-1,75%) e Argentina (-1,05%) têm as menores taxas entre 40 países analisados.
Caso o Banco Central optasse pela manutenção da Selic em 14,5%, o juro real do Brasil seria de 10,09%. Se cortasse em 0,50 ponto percentual, o juro real iria para 9,36%. Na média geral, os juros reais dos 40 países analisados ficaram em 1,65% ao ano.
Sem descontar a inflação, no ranking nominal, o Brasil tem a quarta maior taxa básica de juros (14,25%). O país fica atrás da Turquia, com 37%, seguida por Argentina, com 29%, e Rússia, com 14,50%.
O levantamento mapeou a política monetária de 164 países, revelando que 72,56% das autoridades mantiveram seus juros inalterados, enquanto 21,34% elevaram as taxas e apenas 6,10% realizaram cortes em suas últimas reuniões.
No recorte focado exclusivamente nas 40 principais economias que compõem o ranking primário, 62,50% optaram pela manutenção, 27,50% promoveram elevações e estritos 10,00% afrouxaram suas diretrizes com cortes.
Inflação – A Selic é o principal instrumento do Banco Central para manter sob controle a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A inflação oficial pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) desacelerou de alta de 0,67% em abril para elevação de 0,58% em maio. No acumulado de doze meses, o índice passou de 4,39% para 4,72%. A taxa em cinco meses saltou de 2,60% para 3,20%.
Pelo novo sistema de meta contínua, em vigor desde janeiro de 2025, a meta de inflação que deve ser perseguida pelo BC, definida pelo Conselho Monetário Nacional, é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja, o limite inferior é 1,5% e o superior é 4,5%.
No último Relatório de Política Monetária, divulgado no fim de março pelo Banco Central, a autoridade monetária elevou, de 3,5% para 3,6%, a previsão do IPCA em 2026, mas a estimativa será revista, por causa do comportamento do dólar e da inflação. A próxima edição do documento, que substituiu o antigo Relatório de Inflação, será divulgada no fim de junho.
As previsões do mercado estão mais pessimistas. De acordo com o boletim Focus, pesquisa semanal com instituições financeiras divulgada pelo BC, a inflação oficial deverá fechar o ano em 5,30%, 0,80 ponto percentual acima do teto da meta, de 4,50%. Antes do início da guerra no Oriente Médio, as estimativas do mercado estavam em 3,95%.

