Tribuna Ribeirão
Economia

Governo brasileiro
 manifesta indignação

Foto Lul: Ricardo Stuckert/PR
Em visita a Catalão(GO), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o Pix é inegociável: “é um patrimônio nacional, é uma conquista do povo brasileiro”


Flávia Said (AE)

Em nota divulgada nesta terça-feira, 2 de junho, a Secretaria de Comunicação Social (Secom) afirmou que o governo brasileiro manifesta indignação com a conclusão preliminar anunciada pelo Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos (USTR) relativa à investigação da Seção 301 contra alegadas práticas comerciais desleais do Brasil. O USTR sugeriu a aplicação de uma tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros, com exceções.

Segundo a Secom, essa investigação teve início em 15 de julho de 2025 por provocação da família Bolsonaro. “Está associada à tentativa de ingerência em temas internos do nosso país, como feito na recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington Essas investidas têm contado com o auxílio de falsos patriotas que usam cargos e funções públicas para conspirar contra os interesses nacionais”, sustentou a pasta.

E prosseguiu: “É lastimável que todo o trabalho de diálogo e articulação que o Governo brasileiro tem feito, inclusive com envolvimento pessoal dos Presidentes Lula e Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares.”

A Secom afirmou que não havia e não há justificativa para medidas unilaterais contra o Brasil ou contra patrimônios brasileiros como o Pix, mencionado nas recomendações preliminares.

E citou estatísticas do “Bureau of Economic Analysis”, que apontam que os EUA acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos (2011-2025). Só no ano passado, o superávit comercial de bens dos EUA com o Brasil totalizou US$ 14,46 bilhões. Considerando bens e serviços a cifra sobe a US$ 40,52 bilhões.

No ano passado, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação, ainda de acordo com o governo brasileiro. Oito dos dez principais produtos importados dos Estados Unidos pelo Brasil tiveram tarifa efetiva zero, incluindo petróleo e derivados, aeronaves, gás natural e carvão. A alíquota média efetivamente cobrada dos produtos norte-americanos no Brasil foi de apenas 3,1%.

“O principal efeito das tarifas unilaterais, politicamente motivadas, aplicadas ao nosso país tem sido impor danos à economia nacional e à geração de emprego e renda, além de diminuir o papel dos EUA como nosso parceiro comercial”, continuou a Secom. E acrescentou que, no primeiro trimestre de 2026, a participação dos EUA nas exportações brasileiras atingiu o menor valor da série histórica ao somar 9,4%.

A nota ainda resgatou a reunião em Washington no dia 7 de maio entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump para dizer que estão em curso negociações tarifárias entre os dois países em busca de soluções que resultem no encerramento da investigação da Seção 301, previsto para 15 de julho, sem imposição de medidas contra o Brasil. O governo brasileiro também diz que dará continuidade ao diálogo com o setor privado com esse objetivo.

Na sequência, a Secom colocou que o Brasil se reserva o direito de recorrer aos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional no ano passado, “para fazer face a situações de injustiça contra o Estado brasileiro, sem amparo nas regras do comércio internacional”.

“O Governo reafirma a expectativa de que as recomendações não se convertam em tarifas efetivas, mas reitera que adotará toda e qualquer medida capaz de reduzir os danos que venham a ser causados à economia, aos empregos e à renda dos brasileiros”.

A nota foi finalizada com a afirmação: “É preciso estar atento aos traidores da pátria e trabalhar em defesa da nossa soberania e dos interesses do povo brasileiro”.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira que os Estados Unidos anunciaram de forma “intempestiva” a taxação de produtos brasileiros em 25%, medida que, segundo ele, foi baseada em uma “mentira”.

Ao comentar o novo tarifaço, Lula afirmou que os EUA justificam a medida alegando um déficit comercial com o Brasil, mas argumentou que, nos últimos 15 anos, os norte-americanos acumularam um superávit de US$ 415 bilhões na balança comercial com o País. Segundo ele, a decisão baseia-se numa “mentira”.

“Eu fiquei preocupado porque acho que o Pix assusta eles”, disse o presidente brasileiro. “Eu falei para o (presidente Donald) Trump: Cara, em vez de ter medo do Pix, coloca o Pix para funcionar nos Estados Unidos. Faz um Pix. É muito mais simples ”

Lula também afirmou que espera um telefonema do presidente Donald Trump para que ele explique a proposta do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos de aplicar tarifa geral de 25% sobre produtos brasileiros, sob a alegação de que o país adota práticas que oneram ou restringem o comércio norte-americano. A decisão dos EUA detalha investigação sobre temas como Pix, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.

“Eu estou esperando um telefonema seu para me explicar o que aconteceu na sua ausência e na minha ausência, porque esse acordo não pode ter a sua anuência. Nós dois combinamos 30 dias, até 15 de julho, para termos uma resposta sobre o que nós propusemos”, disse Lula.

O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, classificou como “extremamente injusta” e “totalmente descabida” a proposta do USTR de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros sob a chamada Seção 301.

Alckmin adiantou que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trabalhará para que a recomendação seja revertida antes que seja formalizada pelo presidente norte-americano, Donald Trump.

Em entrevista coletiva, Alckmin defendeu o Pix, criado pelo Banco Central do Brasi, em 2020 e garantiu que este ponto está fora da negociação com os Estados Unidos porque “não prejudica ninguém e é altamente benéfico à população brasileira”.

Diego Baravelli/Minfra

Em meio ao tarifaço imposto por Trump, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 6,6% em 2025, somando US$ 37,716 bilhões

“O Pix é um patrimônio nacional, é uma conquista do povo brasileiro, a tecnologia a serviço da sociedade e da economia, sem nenhum custo para as empresas e para a população. O Pix não tem a menor lógica entrar nisso porque ele não prejudica ninguém”, disse o vice-presidente ao descartar qualquer negociação em torno do sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.

Alckmin denunciou a ação de “sabotadores” internos que tentam prejudicar o país por interesses eleitorais, em um momento em que o governo brasileiro negocia com os Estados Unidos.

“Sempre que o diálogo avança, infelizmente, falsos patriotas, sabotadores prejudicam, colocam os seus interesses pessoais e eleitorais acima do interesse do país e do interesse público”, afirmou o vice-presidente. Segundo ele, essa postura de sabotagem tem reflexo interno no emprego e na renda, além de prejudicar as empresas brasileiras e a sociedade.

Já o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República pelo PL, afirmou ter enviado uma carta ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, pedindo que o país desista de impor novas tarifas ao Brasil.

“A imposição de novas tarifas causaria sérios prejuízos ao povo brasileiro – os mesmos cidadãos que veem os Estados Unidos como um parceiro e um amigo. Portanto, escrevo para reiterar, formalmente, o pedido que lhe fiz pessoalmente: que os Estados Unidos não imponham tarifas ao Brasil”, diz o senador no documento.

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