Por Tirso Meirelles, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp)
O produtor rural brasileiro vive um dos períodos mais desafiadores das últimas décadas. Ao contrário da percepção de que a agropecuária é um setor permanentemente rentável, a realidade no campo é marcada por margens cada vez menores, custos de produção elevados, desafios dos eventos climáticos extremos, crédito mais caro e crescente insegurança nos mercados internacionais, com o avanço do protecionismo em todos os continentes. Ainda assim, é esse produtor que continua investindo em tecnologia, inovação e sustentabilidade para garantir alimentos ao Brasil e a mais de um bilhão de pessoas em 150 países.
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Essa realidade é ainda mais significativa quando se observa a estrutura da atividade no âmbito nacional. Cerca de 70% das propriedades rurais brasileiras pertencem a pequenos e médios produtores, responsáveis por quase 70% dos alimentos consumidos no mercado interno e por 25% das exportações do agronegócio. No estado de São Paulo as pequenas e médias propriedades, de até 68 hectares, representam 73% do total. São famílias que geram empregos, movimentam as economias locais e sustentam milhares de municípios do interior.
Produzir levando em conta todas as variáveis desta equação tornou-se um exercício permanente de resistência. Fertilizantes, defensivos, combustíveis, máquinas, energia, fretes e serviços acumularam fortes aumentos nos últimos anos. Paralelamente, agricultura de precisão, bioinsumos, irrigação, conectividade, mecanização, genética, rastreabilidade e preservação ambiental deixaram de ser diferenciais para se tornarem exigências de mercado.
Estudos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da USP/Esalq, demonstram que os ganhos de produtividade não têm sido suficientes para preservar a rentabilidade. Na citricultura, por exemplo, os dados apontam que os custos de produção cresceram entre 15% e 16% em apenas uma safra, segundo o Cepea, da USP/Esalq, enquanto estudos com soja apontam redução superior a 25% na margem bruta em determinados sistemas produtivos. Em outras palavras, o produtor investe mais apenas para manter sua competitividade.
A pressão interna se soma a um cenário internacional cada vez mais adverso e protecionista. Enquanto concorrentes contam com volumes consideráveis de subsídios, por volta US$ 1,5 bilhão, seguros robustos – mais de 96% de cobertura nos Estados Unidos, enquanto no Brasil não deve chegar 2% – e mecanismos ágeis de defesa comercial, o produtor brasileiro enfrenta novas barreiras para acessar mercados estratégicos. Somente em julho de 2026, os Estados Unidos aplicaram duas tarifas adicionais – 25% e 12,5%, respectivamente – sobre parte das exportações brasileiras no âmbito da Seção 301. A União Europeia ampliou as exigências da Regulamentação Antidesmatamento (EUDR), impondo novas condicionantes para produtos como carne e soja. Ao mesmo tempo, a China criou a tarifa de 55% para valores de importação acima de 1,1 milhão de toneladas de carne, reforçando mecanismos para resguardar seu mercado.
Internamente, episódios como o do leite em pó importado da Argentina e do Uruguai evidenciam outra fragilidade. Após sucessivas denúncias da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) e de entidades do setor, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) reconheceu oficialmente a prática de dumping contra os produtores brasileiros. Entretanto, mesmo diante da comprovação técnica da concorrência desleal, a adoção das medidas de defesa comercial foi postergada. O resultado é sentido em todo Brasil e em São Paulo, especificamente, nas 41 mil propriedades rurais que produzem leite, em 605 dos 645 municípios do estado. São estes produtores que continuam convivendo com preços artificialmente deprimidos, perda de competitividade e redução da renda, uma tríade que tem como efeito o encerramento de atividades e até o êxodo rural, uma vez que o produtor não tem como continuar investindo.
A ausência de uma estratégia coordenada de defesa comercial tem consequências que vão muito além da balança comercial. Estimativas da CNA apontam que somente as tarifas impostas pelos Estados Unidos poderão provocar perdas de US$ 2,7 bilhões ao agronegócio brasileiro em 2026. Esse impacto desencadeia um efeito dominó: reduz a renda do produtor, diminui investimentos em tecnologia, posterga a compra de máquinas e insumos, reduz a demanda por transporte, armazenagem e assistência técnica e compromete a adimplência e a geração de empregos em centenas de municípios cuja economia depende da atividade agropecuária. Além, é claro, de afetar o consumo.
Esse cenário também explica o crescimento das dificuldades financeiras no campo. A sucessão de perdas climáticas, o aumento dos custos e a queda da rentabilidade levaram milhares de produtores à renegociação de dívidas.
Em 2026, o próprio governo federal reconheceu, após um trabalho intenso das federações de agricultura, CNA e Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a gravidade da situação ao criar uma linha especial para renegociação de operações do Pronaf, Pronamp e demais modalidades de crédito rural. A linha contempla financiamentos de até R$ 400 mil para agricultores familiares e R$ 2 milhões para produtores enquadrados no Pronamp, com juros de 6% ao ano e 9% ao ano, respectivamente, refletindo o avanço da inadimplência e da perda da capacidade de pagamento de produtores de todos os portes. Dados de instituições financeiras mostram que a taxa de inadimplência dos produtores rurais chegou a 8,2% no quarto trimestre de 2025, o maior patamar detectado até o momento, sendo que os pequenos e médios produtores estão entre os mais endividados.
A expectativa dessa renegociação é que os produtores continuem com margem para manter os investimentos no campo. Não se trata de recursos a fundo perdido, mas empréstimo para honrar seus débitos e manter a segurança alimentar de brasileiros e de grande parte do mundo.
Dada a urgência do tema, nos chamou a atenção o descompasso entre o anúncio do plano e a regulamentação da medida, que levou mais de 20 dias. E a falta de atualização das linhas de crédito tem levado milhares de famílias a viver num limbo. Por terem investido no crescimento de sua produção, ultrapassaram o limite da agricultura familiar, porém não conseguem ser enquadrados na agricultura empresarial. Com isso, ficam fora de todas as linhas de financiamento minimamente subsidiadas. A Faesp tem feito coro com as demais entidades para que o governo entenda o setor agropecuário como único, garantindo oportunidade a todos os produtores.
É justamente nesse contexto que o Brasil precisa substituir políticas emergenciais por uma verdadeira política agrícola de Estado, com um mínimo de 10 anos, uma vez que os investimentos no campo levam cerca de oito anos para seu retorno. O Plano Safra não pode permanecer como a única resposta às necessidades de um setor que planeja investimentos de longo prazo. O país precisa de uma estratégia permanente que assegure seu protagonismo. Previsibilidade de recursos, crédito compatível com a realidade da atividade, seguro rural fortalecido, defesa comercial eficiente, investimentos em armazenagem, irrigação, logística, conectividade e inovação são medidas essenciais para consolidar nossa posição mundial, que é reconhecida por entidades importantes do setor.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) tem apontado que a produção mundial de alimentos precisa crescer cerca de 60% a 70% até 2050 para atender a uma população global estimada em mais de 9 bilhões de pessoas e reconhece o Brasil como um dos principais parceiros nessa empreitada. Isso devido à sua alta produtividade no campo, a existência de terras agricultáveis, sem necessidade de desmatar um centímetro de matas, a forte capacidade de exportação e o avanço tecnológico agrícola, que garante a ampliação da produção sem aumentar a área cultivável.
A Faesp defende exatamente esse caminho. O produtor rural brasileiro não busca privilégios, nem proteção artificial. Busca condições justas para competir, segurança jurídica para investir e uma atuação firme do Estado na abertura e manutenção dos mercados internacionais.
O Brasil construiu uma das agropecuárias mais eficientes e sustentáveis do planeta graças ao trabalho de seus produtores. Ao contrário de narrativas amplamente divulgadas, o país registra 66% de cobertura nativa, sendo que, deste total, mais de 33% encontram-se nas propriedades rurais. Se monetizarmos isso, o valor ultrapassaria US$ 1 trilhão. Ou seja, os produtores rurais não produzem somente alimentos, preservam a sustentabilidade do planeta.
Por isso, basta de fazer cara de paisagem e produzir planos e mais planos que dificilmente saem do papel. Mais do que defender o agronegócio, trata-se de garantir o desenvolvimento econômico do país e assegurar que quem produz continue tendo condições de investir, inovar e alimentar o futuro.
O produtor tem feito a sua parte, falta agora o governo federal fazer a dele! Plante, cultive e colha a paz!

