Tribuna Ribeirão
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O intruso

Antonio Carlos Augusto Gama *
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Olhou para trás por simples força do hábito.

É claro que ele estava lá, caminhando a cerca de dois passos dele, meio de lado. Mancava ligeiramente da perna direita.

Jamais se esqueceria de como tudo começou.

Passava de uma hora da madrugada quando percebeu que ficara sem cigarros e, apesar do horário, resolveu sair para comprar. Na volta, ao atravessar a Ponte dos Passos Perdidos, vislumbrou o homenzinho sentado na murada, de costas para o rio. A princípio não lhe deu maior atenção, até entrever que girava o corpo e passava as pernas para o outro lado. Pressentiu que iria se jogar e num impulso saltou à frente, agarrou-o como pôde e puxou para o chão. Caíram ambos, o velhote por cima.

Quando se levantaram o velho disse algumas frases confusas de que somente conseguiu entender palavras soltas: sozinho, filhos, Clarice…

De repente começou a chover, e sem coragem de deixá-lo sozinho naquele lugar, fez com que o seguisse e o levou para casa, onde lhe serviu um sanduíche e um copo de leite.

Disse-lhe que podia dormir ali naquela noite e o velho sorriu agradecido, os olhos úmidos.

No dia seguinte, um sábado, acordou mais tarde com o cheiro bom do café. Foi até a cozinha e encontrou a mesa posta, com tudo que mais gostava, o pão fresco, a manteiga, o queijo, o mel, o mamão já partido ao meio, a xícara grande, o jornal. De pé, ao lado, o velho esboçava um sorriso tímido.

E o velho foi ficando, tornando-se parte da sua rotina.

Pouco falava, apenas alguns monossílabos, muxoxos, gestos e meneios de cabeça. O suficiente para se entenderem.

Deu-lhe roupas e sapatos novos, confortáveis.

Não sabia se para lhe ser agradável ou porque tinham os mesmos gostos, discretamente e com satisfação estampada no rosto o velho o acompanhava em tudo. Lia, ouvia música, tomava vinho ou conhaque, fumava, assistia aos filmes e ao futebol na televisão, ia às livrarias e até mesmo à redação do jornal em que trabalhava, onde passava algumas poucas horas um ou dois dias por semana, já que costumava remeter por e-mail as matérias e os artigos que escrevia.

Com a mesma discrição, o velho desaparecia quando ele levava alguma mulher para casa. Reaparecia depois, sem que nunca soubesse onde se enfiava.

Embora estivesse sempre por perto, ninguém parecia notar a presença do velho. Era como se dissolvesse ou se integrasse ao ambiente, com artes de camaleão.

No início chegou a pensar se o velho não seria um fantasma ou uma alucinação. Estaria ficando maluco ou perturbado?

Mas à medida que o tempo passava a dúvida foi esmaecendo e assossegou.

E assim sossegado, quase sem se dar conta, que chegou a mais um aniversário.

Presenteou-se com um régio jantar no seu restaurante preferido, tomou um vinho caro e fumou um cubano, o velho acompanhando-o.

Foi deitar-se quando raiava o dia e ao despertar, por volta de uma hora da tarde, não viu o velho, mas isso não o surpreendeu.

Abriu a porta do armário e lá estavam as roupas do velho.

Podia vesti-las agora.

* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

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