Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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Leitoras pediram sugestões sobre como escrever. Missão difícil, porque cada autor vai descobrindo o seu jeito na prática diária. Além disso, cada texto tem sua inteireza e quase sempre o que dá certo funciona naquela arrumação, e não em outra. Mesmo assim, vamos tentar algumas dicas básicas, úteis como elementos pré-redacionais.
Para escrever um texto, o primeiro passo é escolher o assunto. As possibilidades são proporcionais à gama de conhecimentos do autor. Fora as matérias solicitadas pela editoria, no geral o tema se impõe, quer dizer: ele fica rondando a mente do autor até se materializar no papel ou, mais comumente, na tela.
No entanto, o assunto não vem de forças sobrenaturais, mas da curadoria de todo o conhecimento acumulado pelo autor e das relações que ele estabelece entre esse saber. Portanto, é indispensável munir-se de todo tipo de informação: cinema, teatro, música, podcasts e canais de vídeo especializados. Tudo o que amplia a experiência é combustível para a escrita: observar, interagir, ouvir, viajar. Essa construção de repertório cultural é a matéria-prima para a redação de bons textos.
Tendo encontrado o que abordar (o conteúdo), é preciso considerar como escrever (a forma). Por óbvio, escrever é diferente de falar. Uma diferença crucial ocorre na produção: a modalidade oral é elaborada quase simultaneamente à execução, enquanto a escrita permite planejamento e revisão. Como consequência, a organização escrita evita hesitações, incompletudes e repetições, o que não costuma incomodar na comunicação oral.
Se as estratégias escritas são diferentes das orais, a leitura é essencial. Ler é fundamental para o escritor, não para parafrasear textos bem-sucedidos, mas para ampliar vocabulário e criar estilo, ou seja, encontrar a sua própria voz. Dos clássicos aos sucessos comerciais, das revistas aos jornais informativos, da ficção à não ficção, ensaio, poesia, tudo é fonte de informação preciosa para o autor, seja no que adotar, seja no que evitar.
No geral a escrita apresenta um grau de correção linguística adequada ao tipo de texto e ao possível leitor. Entretanto, é difícil encontrar texto sem nenhum desvio normativo. O leitor costuma perdoar um ou outro deslize, mas, se houver muitos erros básicos, os equívocos abafam o tema e ressaltam a gramática. Para além da normatividade, o texto precisa ter sentido, precisa se fazer compreender.
O sentido textual vai sendo construído por meio de entrelaçamentos, ligando as palavras, as frases, os parágrafos para compor um todo. Portanto, um dos princípios básicos para organizar um texto é conectar essas partes, processo que se chama coesão textual.
A coesão acontece por antecipação (catáfora) ou por retomada de algo já citado (anáfora). Esses recursos vão criando a tessitura do texto, ligando as partes, sem repetições enfadonhas. Sinônimos são poderosos elementos de amarração textual. Por isso, além da leitura frequente, o autor precisa ser consultor assíduo de dicionários. Gramáticas e livros sobre como escrever também fazem parte da biblioteca do escritor.
Respondendo ao título, um texto bem escrito é feito de uma preparação prévia minuciosa, mais as revisões incontáveis, que só se encerram porque há prazos a cumprir. O leitor recebe o resultado final, mas o processo começou bem antes de o autor começar a escrever. É como a aula de um bom professor: as ações preliminares acontecem nos bastidores, nas pesquisas, nas simulações, no planejamento, na coesão entre as aulas prévias e as subsequentes.
Conhecer as teorias de produção textual pode ajudar, mas nada substitui a leitura e a escrita. O texto se resolve no texto, por redundante que pareça. Às vezes é uma boa ideia só na cabeça do autor, mas não se sustenta no papel, não consegue atrair o leitor. Então o escritor deve ler, ler, ler, escrever e escrever mais ainda. De preferência escrever com regularidade. Por fim, considerar que antes de publicar é preciso revisar, revisar, revisar. Escrever é reescrever.
Vários escritores renomados dão testemunho da sua prática criativa. Desta vez ficamos com Olga Tokarczuk, polonesa vencedora do Nobel de literatura em 2018: “Eu escrevia a manhã toda e depois, por volta das três da tarde, fazia um intervalo e andava um pouco de bicicleta. Às vezes eu ia mais longe e perdia a noção do tempo, mas acho que dentro de minha cabeça eu continuava sempre a trabalhar. Depois do chá, eu passava os finais da tarde corrigindo aquilo que eu tinha escrito de manhã. Em suma, eu trabalhava dez ou doze horas por dia.” (Escrever é muito perigoso: ensaios e conferências)
O título O que faz um texto, o texto? faz alusão ao livro de Roberto DaMatta, O que faz o brasil, Brasil? O antropólogo trabalhou com letras minúscula e maiúscula, utilizadas para substantivos comuns e próprios, para transpor o genérico para o particular. No título acima empreguei artigo indefinido (um), usado para generalizações, e artigo definido (o), para singularizar o substantivo. Viva a língua portuguesa!
* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

