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Paternidade começa antes do nascimento

Murilo divide com a esposa Natália, cada momento dos gêmeos Clara e Caetano | Reprodução

O Dia dos Pais tem mudado de significado à medida que a sociedade transforma padrões, comportamentos e relações familiares. Se, durante muito tempo, o pai foi visto como uma figura secundária nos cuidados domésticos dos filhos pequenos, hoje muitos homens participam ativamente desde o planejamento da gravidez, até o acompanhamento da gestação e a divisão dos cuidados e das responsabilidades da nova rotina familiar.

Foi assim na família do analista de Segurança de Tecnologia da Informação (TI), Murilo Ferreira, que divide com a esposa, a publicitária Natália Ferreira, os cuidados com os gêmeos Clara e Caetano. A história da família não começou com o nascimento das crianças, mas com o desejo de tê-las.

Depois de anos de espera, tratamentos e duas transferências embrionárias, o casal fez uma pausa de mais de dois anos. No entanto, o desejo de formar uma família era grande e uma nova tentativa de fertilização in vitro resultou na gravidez dos gêmeos.

Reprodução

Para Murilo, participar de cada etapa tornou a paternidade concreta muito antes do nascimento. Hoje, ele reorganiza a rotina profissional para estar presente no dia a dia das crianças e divide com Natália tarefas, decisões e cuidados antes, digamos, mais exclusivos das mulheres.

“Para mim, ser pai é estar presente de verdade, acompanhar cada conquista, dividir os cuidados e participar de tudo o que faz parte da vida dos meus filhos. A paternidade é construída diariamente, nos momentos mais simples da rotina e também nos desafios que enfrentamos juntos”, afirma Murilo.

A chegada de Clara e Caetano trouxe alegria, mas também exigiu coragem. Os gêmeos nasceram prematuros, com 34 semanas, e permaneceram 27 dias na UTI neonatal. Quando se preparava para receber alta, Caetano apresentou uma sepse grave, sofreu paradas cardiorrespiratórias e precisou ser intubado. Posteriormente, a família recebeu o diagnóstico de paralisia cerebral do menino.

Durante a internação, Murilo levava o notebook para o hospital e trabalhava alguns andares abaixo do da UTI para permanecer perto dos filhos. Depois da alta, os cuidados passaram a incluir consultas, terapias e estímulos necessários ao desenvolvimento de Caetano, sem deixar de atender às necessidades de Clara.

“O Murilo sempre esteve presente e dividiu comigo os cuidados e as responsabilidades com as crianças. Somos parceiros nas decisões, nos desafios e nas pequenas tarefas do dia a dia. Essa participação faz toda a diferença para a nossa família”, afirma Natália.

Na casa de Murilo e Natália, compartilhar é justamente a base da rotina. Ela é dividida pelos dois entre o trabalho, os compromissos, as brincadeiras e os cuidados específicos com os filhos.

Para a médica Rebecca Pontelo, do Centro de Fertilidade de Ribeirão Preto (CEFERP), responsável pela fertilização do casal, histórias como a de Murilo mostram que a paternidade não começa no parto. “O tratamento envolve o casal e pode aproximar o homem de todas as etapas que antecedem a chegada do filho. Quando ele participa das consultas, dos exames, das decisões e das expectativas do tratamento, já está construindo o seu lugar como pai”, afirma.

Reorganizando o trabalho

A cada novo passinho ensaiado pelos filhos gêmeos, Jorge e Francisco, hoje com 1 ano e 3 meses, Daniel Terra explode de orgulho. Ao lado da esposa, Tatiana, divide os cuidados com os gêmeos e organiza os compromissos profissionais para acompanhar de perto cada pequena descoberta dos meninos.

Como Tatiana trabalha em modelo híbrido e Daniel mantém uma escola, os dois se alternam na rotina, com o apoio de uma profissional e dos avós. “Ser pai dos dois é viver todos os dias aquilo que desejei por muito tempo. Quero estar presente não apenas nos grandes momentos, mas principalmente na rotina, porque é nela que construímos nossa relação com eles”, afirma Daniel.

O casal recorreu à fertilização in vitro depois de um diagnóstico de infertilidade masculina. “Durante todo o tratamento, nós nos unimos ainda mais e mantivemos a esperança de que nosso filho chegaria”, relembra.

No condomínio onde a família mora, Daniel faz questão de levar os filhos para passear no parquinho e nas demais áreas de lazer. Orgulhoso, aproveita esses momentos para brincar e fortalecer o vínculo com os filhos. “Faço questão de viver cada momento com eles, porque são a realização de um sonho e representam o maior amor que já senti”, afirma.

Brasil tem 1,2 milhões de pais solos

Dados do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2022, revelaram que o Brasil tem cerca de 1,2 milhão de pais solo. O termo define homens sem cônjuge que moram e criam os filhos sozinhos, o chamado lar mono parental.

Daniel reorganizou os compromissos profissionais para acompanhar integralmente, junto com a esposa, o crescimento dos filhos Jorge e Francisco | Reprodução

Segundo IBGE, o perfil deste tipo de pai é marcado por homens mais velhos, com maior estabilidade financeira, diferenciando-se drasticamente do perfil socioeconômico das mães solos. O que, em tese, diminuiria a incidência de vulnerabilidade social nessa categoria de lar.

Enquanto a maternidade solo é frequentemente associada à vulnerabilidade social e ao abandono paterno, a paternidade solo costuma decorrer de processos judiciais de divórcio, viuvez ou, em casos mais recentes, decisões conscientes de adoção homo parental ou mono parental

Os dados mostram que o país ultrapassou a marca de 11 milhões de mães que criam os filhos sozinhas. De 2012 a 2022, foram 1,7 milhão de novas mães solo. Além disso, a maior parte (72,4%) vive em domicílios mono parentais. 15% dos lares brasileiros são chefiados por mães solo.

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