Tribuna Ribeirão
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Qual a língua mais difícil do mundo?

Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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Como professora de língua portuguesa no exterior, presenciei casos curiosos, como este: um dinamarquês conheceu uma portuguesa quando ambos trabalhavam na Alemanha. Nesse momento, ele não falava português e ela não falava dinamarquês. Eles se comunicavam em alemão. Casaram-se. Tiveram uma filha. A mãe se comunicava com a criança em português; o pai falava em dinamarquês com ela e, quando a conversa envolvia os três, recorriam à língua alemã. Não havia estranhamento linguístico para a criança. Ao contrário, ela rapidamente identificou que dengos e manhas surtiam resultado melhor em português. Com a mudança da família para o país nórdico, o dinamarquês se consolidou como língua materna, inclusive na alfabetização.

A aquisição da linguagem para a criança é muito diferente dos processos de aprendizado do adulto, mas podemos identificar algumas similaridades. A primeira é a necessidade. Aprender a se comunicar faz parte de sobrevivência. Quando a pessoa mora e trabalha no exterior, vencer as dificuldades é imperativo. Tive uma amiga brasileira que vivia como aupair em Londres e seu léxico ativo englobava vassoura, rodo, escova, balde, esponja, bucha, detergente, desinfetante, pano de limpeza, pano de prato. Um amigo em intercâmbio na universidade não sabia nenhuma dessas palavras em inglês.

Outro aspecto é a motivação, sobretudo quando interna. Motivação interna é quando a escolha é pessoal, sem interferência de terceiros. Tenho uma amiga brasileira que aprende mandarim, mas não tem o menor interesse em ir à China. Aprende porque gosta de estudar línguas, gosta de conhecer o sistema tonal e gasta horas treinando os quatro tons da sílaba “ma”, que pode significar “mãe” ou “cavalo”, dependendo do tom. Esse estudo também ajuda a afastar o Alzheimer, ela diz brincando, mas é sério.

A exposição à língua também é fator a considerar no aprendizado. No entanto, não está necessariamente ligado a estar no país da língua alvo. Há aqueles que moram anos no exterior, mas convivem apenas com pessoas da própria nacionalidade e têm contato restrito com a língua e cultura do país. Por outro lado, tenho amigos que nunca saíram do Brasil e têm proficiência em inglês bastante desenvolvida. Eles se colocam em contexto de imersão, mesmo longe do país: leem em inglês, ouvem, comunicam-se por escrito e oralmente. A internet tem vasto material para aprendizagem de línguas, a maioria de graça. Quando há motivação pessoal, disciplina e método, o resultado é a fluência.

Todas essas questões têm que ser consideradas quando se pensa em identificar a língua mais difícil do mundo. Difícil em quê? Há diferentes níveis de complexidade, quer o objetivo seja ler, escrever, ouvir ou falar. Nem toda língua utiliza o alfabeto latino. Então, para ler a literatura russa no original, primeiro é preciso se dedicar às 33 letras do alfabeto cirílico. No caso do árabe, além de conhecer um alfabeto novo, é necessário aprendera ler da direita para a esquerda e enfrentar variações amplas nos muitos dialetos. A gramática da língua dinamarquesa é bem mais simplificada do que a nossa, mas a pronúncia pode ser bastante desafiadora.

Dentre os meus alunos, lembro de um coreano que rapidamente conseguiu se comunicar. Considerando que a gramática coreana é bastante peculiar e a pronúncia exige ajustes finos, como ele conseguiu aprender a língua portuguesa, tão diferente da língua materna dele? Ele estudava! Todo dia. Seguia todas as sugestões dadas em aula. Era detalhista, metódico e disciplinado. Ou seja, traços de personalidade interferem decisivamente na relação com a nova língua. Ser aberto a erros e gostar de desafios são facilitadores.

A proximidade entre a língua materna e a língua alvo também impacta no grau de dificuldade. Quanto mais distante em termos de estrutura e família linguística, mais difícil é aprender: a língua portuguesa e a vietnamita. No entanto, línguas muito próximas, como o português e o espanhol, também podem embaralhar os sistemas, por isso muitos recorrem ao portunhol sem nem perceber. Não para por aí: a experiência linguística do falante na sua própria língua e em outras também ajuda a administrar os obstáculos.

Tudo isso indica que muitas variáveis envolvem a questão sobre a língua mais difícil do mundo. Do ponto de vista dos estudos da linguagem, a linguística, não é possível obter tal resposta. Objetivamente, toda língua representa uma visão de mundo, é um fenômeno social que permite a interação entre as pessoas. Ela é dinâmica, ou seja, as palavras vão mudando, adquirindo novas acepções, conforme a sociedade vai sofrendo alterações. Cada língua é o que precisa ser para permitir a interação social e representar a história e a cultura do povo.

* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

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