André Luiz da Silva *
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A eleição presidencial de 2026 ficará marcada na história brasileira. Foi uma disputa acirrada, repleta de reviravoltas, que parecia saída de um roteiro de Hollywood: a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e a surpreendente virada de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo.
A mobilização do chamado “Exército de Lula”, que não disparou um único tiro, mas levou milhares de pessoas às ruas e movimentou as redes sociais, surpreendeu até os mais experientes. Institutos de pesquisa, especialistas em marketing político e coordenadores de campanha tiveram de rever suas previsões. As imagens de jovens e idosos defendendo suas convicções e o direito de escolher emocionaram. Esse deveria ser o grande assunto: a participação popular e a força da democracia.
Mas a derrota nas urnas não foi aceita com naturalidade. O candidato derrotado questionou o resultado, levantando suspeitas de fraude sem provas. Depois, deixou o país alegando perseguição política e, mesmo com Justiça Eleitoral, partidos e lideranças reconhecendo a legitimidade do pleito, apresentou uma carta que circulou em três versões. Isso, no mínimo, coloca em dúvida a firmeza de suas justificativas.
O que veio depois merece mais atenção. Parte de seus apoiadores usou as redes para a intolerância, chegando a incentivar empresários a demitir funcionários por divergências políticas. Circularam listas de boicote a profissionais e comerciantes que apoiaram o adversário, e até se ameaçou interromper iniciativas sociais que beneficiavam pessoas independentemente de preferência eleitoral.
Não pretendo discutir implicações jurídicas, nem comparar diretamente com o boicote aos comerciantes judeus na Alemanha nazista, em 1º de abril de 1933, poucos meses após Hitler assumir o poder. Quero apontar a contradição entre esse comportamento e os valores morais e religiosos tão exaltados na campanha.
É curioso que muitos dos que alimentam essa divisão se apresentem como cristãos. Mas a fé cristã não depende da vitória de um candidato, nem justifica hostilizar quem pensa diferente. Perder uma eleição não deveria significar perder a capacidade de respeitar o próximo. Quando a divergência apaga a solidariedade e a compaixão, talvez seja hora de rever não só as convicções, mas a maneira de praticar a fé. Afinal, que evangelho é esse em que o amor de Jesus parece ter preferência partidária?
Jesus acolheu pobres, enfermos e excluídos, sem investigar convicções nem exigir concordância. Não foi esse o ensinamento que inspirou os “fariseus filantrópicos”, que transformam a caridade em autopromoção, buscando aplausos, prestígio, chance de melhorar a imagem ou conquistar o poder.
Também é comum publicar discursos inflamados, ofensas e ameaças por curtidas e engajamento; às vezes, a indignação vira negócio. Com a repercussão negativa, surgem vídeos de explicação com o bordão “Quem me conhece sabe…”, voz mansa, semblante abatido e até lágrimas. Podem despertar simpatia, mas não apagam o que foi dito, nem isentam de eventuais consequências legais.
Passada a eleição, os vencedores devem comemorar e assumir a responsabilidade de governar. Aos derrotados cabe reconhecer o resultado e exercer uma oposição firme, responsável e construtiva. Democracia pressupõe divergência, fiscalização e respeito às regras do jogo. O adversário político não precisa virar inimigo pessoal.
Ninguém precisa pensar igual ou abandonar suas convicções. O que não podemos é permitir que as diferenças políticas superem nossa capacidade de convivência. O Brasil não pertence a um partido, a um presidente ou a um grupo de eleitores: pertence a todos nós. As eleições passam, os mandatos terminam e os discursos ficam para trás, mas as consequências das nossas atitudes permanecem. De nada adianta defender a vitória de um projeto político se, no caminho, permitirmos a derrota dos valores que nos tornam humanos.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

