Antonio Carlos A. Gama *
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Minhas senhoras e meus senhores, vou propor-me a ensinar-lhes a arte de cantar. Não para que se tornem um Pavarotti ou uma Callas, mas para que possam cantar no banheiro, ou em alguma festinha íntima e fazer boa figura.
Para cantar, é preciso antes ter voz. Os mudos não têm, ou quase não têm voz, por isso não cantam.
No entanto, há muitos cantores por aí, com mil CDs gravados, que mesmo sem ter voz ou a tendo perdido (como o tal Zezé de Camargo) canta e encantam os incautos.
Há aparelhos que vocês podem encostar na boca, como se fossem engoli-los, para que tenham um vozeirão, desses de rebentar os copos de cristais na cristaleira e fazer voar as moscas para fora da janela. E agora, há ainda a tal de Inteligência Artificial, que faz de todos nós exímios cantores.
Tenho visto, ou ouvido, sujeitos e sujeitas que, festejados em todos os canais de televisão e nos palcos, em vez de verdadeiramente cantar, se sacolejam. O que vale é o sacolejo, ter uma mola nos quadris e atirar as pernas, os pés, para todos os lados, e os braços, como num ataque de convulsão epilética. E a plateia urra diante deles. Basta que tenham os macacos ou as macacas de auditório para os aplaudir.
Não importa que a voz seja roufenha ou de taquara rachada. Se for roufenha, melhor para cantar um tango argentino. Para isto, convém também enrolar um cachecol no pescoço. Aí, é só cantar o “Adiós, muchachos, compañeros de mi vida” ou o “Mi Buenos Aires querido…”
Um violão para acompanhar a cantoria, enfiado debaixo do sovaco, é também conveniente. Ainda que mal saibam dedilhar-lhe as cordas e fazer apenas tum-tum, tum-tum. O décor é tudo. Acrescentem antes a isso um pedido ao maestro: “Maestro, dê aí um dó menor.” Isto demonstra que o cantor, ou a cantatriz, entende do riscado.
Como somos do país do samba e do Carnaval, aconselho-lhes a cantar o samba, movendo os pés para diante e para trás, acompanhado de um gingado. O êxito será garantido. Se as madamas e os cavalheiros forem mais modernosos, dediquem-se à bossa-nova. Para ela, quanto menos voz se tiver, melhor. Basta sussurrar, como se estivessem contando um segredo que não deve ser escutado por ninguém.
Não desprezem a moda de viola. Se a adotarem, melhor é que arranjem um companheiro ou uma companheira. E não esqueçam de dar nome à dupla, Zico e Zuca, por exemplo, ou Taco e Tica.
Aos que apreciam a música norte-americana, são imprescindíveis o pistão, o violoncelo, o saxofone e a bateria. Um piano para ser martelado ajuda muito. E nem é necessário saber o inglês. As palavras da canção podem ser estropiadas ou cuspidas de qualquer jeito. Cantem “New York, New York’’, com aquele jeitão de Frank Sinatra. E revirem os olhos para cima, cismadoramente. Enquanto isso, vão bebendo o uísque, num copo pousado em cima do piano. Ou experimentem o rock. Neste caso, não deixem de desbundar, como Elvis Presley.
O fado, com sotaque alfacinha, chorando pela mãe, vai fazer correr as lágrimas dos ouvintes. Porque todos têm a sua mãezinha, coitada, olhando pela janela, com o xale aos ombros.
A canção italiana, esta é para dar o dó de peito. E a francesa assegurará muitas palmas, desde que sejam convenientemente fanhosos, cantando pelo nariz. No repertório, não dispensem o “La vie em rose”.
Em nosso país, temos milhares de cantores e cantoras. Sejam mais um, ou uma. Cantem no coro da igreja, no botequim, na esquina, no teatro, nos corredores, e no curral da avó.
A vida é uma canção. Cansa, mas é uma canção. Cantem, sobretudo, no ouvido da mulher amada.
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

