Dados da Secretaria Municipal de Saúde de Ribeirão Preto revelam que os cinco Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do município realizaram este ano – até 22 de setembro – 158 atendimentos diários presenciais de crianças, adolescentes e adultos com algum tipo de psíquico, como os ligados a dependência em jogos online. Um total de 41.801 registros. Já no mesmo período, o Aplicativo Cuidar+On, da Secretaria Municipal de Saúde, totalizou, 22.036 atendimentos em psicologia. Uma média diária de 83 casos.
O Cuidar Mais On, funciona 24 horas por dia e o acesso é imediato, sem agendamento. Para usar, basta abrir o aplicativo, tocar em “Teleconsulta” e selecionar “Pronto Atendimento Emocional”. O serviço é gratuito e está disponível para moradores da cidade com cadastro atualizado em uma Unidade Básica de Saúde (UBS).
A prefeitura também disponibiliza o Pronto Atendimento de Saúde Mental (PAM) para casos emergenciais de pacientes em crise psiquiátrica. Inaugurado em junho de 2026, ele funciona 24 horas por dia e atende a demanda espontânea – sem necessidade de encaminhamento. Funciona 24 horas e já atendeu desde a inauguração 5.527 pacientes distintos. O serviço funciona na Rua Bruno Pelicani, 70 no bairro Quintino Facci II, zona Norte da cidade.
De acordo com a Secretaria da Saúde, todos equipamentos contam com suporte e atendimento psicológico para casos de vícios em jogos online e apostas. Uma dependência considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como problema crescente de saúde pública e listada em sua Classificação Internacional de Doenças (CID-11).
Questionada sobre o número de casos atendidos pela Rede Municipal, a prefeitura afirmou que ainda não contabilizou no total de atendimentos psiquiátricos e psicológicos, quantos tiveram como motivo problemas causados por vício em apostas, como as online. Ressalta, porém, que está em fase de consolidação desses dados para posterior divulgação.
“Quando alguém percebe que tem um problema com jogos, é comum que sinta vergonha de procurar ajuda presencialmente. No conforto e na privacidade de casa, em um ambiente em que se sinta seguro, essa pessoa consegue dar o primeiro passo e fazer a chamada”, afirma o secretário municipal de Saúde, Mauricio Godinho, sobre o atendimento disponibilizado de forma online pelo aplicativo Cuidar Mais On.
Ribeirão criou Estatuto para transtorno em jogos
O prefeito de Ribeirão Preto, Ricardo Silva (PSD) sancionou no dia 2 de setembro, o Estatuto Municipal de Combate à Ludopatia, também chamada de transtorno do jogo. A doença é caracterizada pela dependência provocada pelo vício em jogos de azar, apostas esportivas de quota fixa, cassinos online e outras modalidades que envolvam apostas em dinheiro, podendo causar prejuízos à saúde física e mental, às finanças e às relações sociais e familiares.

A lei recebeu o nome de Rafael Silva Neto, em homenagem ao jovem ribeirão-pretano de 33 anos. Sobrinho do prefeito Ricardo Silva, Rafael que perdeu a vida para a dependência em apostas. É resultado de Projeto de Lei do vereador Jean Corauci (PSD) e estabelece diretrizes e ações para prevenir, fiscalizar e tratar a dependência em jogos de azar e apostas no município.
Para o prefeito Ricardo Silva, a criação do Estatuto representa uma forma de transformar uma experiência dolorosa da família em uma política pública de prevenção e cuidado. “O Rafael era um jovem querido, cheio de sonhos e de vida. Perdê-lo foi uma dor imensa para toda a nossa família. Como prefeito, poder transformar essa dor em uma política pública que ajude outras famílias é muito importante. A ludopatia precisa ser tratada com seriedade e acolhimento. Essa lei é um passo para que Ribeirão Preto esteja mais preparada para prevenir, identificar e cuidar de quem enfrenta esse vício”, afirmou o prefeito quando da sanção da lei.
A norma também assegura às pessoas com ludopatia e seus familiares atendimento integral e gratuito pelo SUS e Assistência Social, incluindo assistência médica, psicológica, psiquiátrica, social e familiar. O atendimento será realizado prioritariamente pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e demais equipamentos municipais de saúde mental e assistência social.
Ribeirão Preto também aprovou uma legislação que proíbe a veiculação de publicidade de plataformas de apostas esportivas em espaços públicos e locais privados de acesso coletivo de Ribeirão Preto.
SUS gasta R$ 30,6 bilhões para tratar viciados em Bets
O impacto financeiro por causa dos danos à saúde provocados pelas apostas online no Sistema Único de Saúde (SUS) é de R$ 30,6 bilhões por ano. O dado consta de estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). Nessa conta, entram as despesas com tratamentos de depressão, ansiedade e impactos causado pelas mortes por suicídio. Apenas 1% do valor arrecadado das operadoras de apostas é destinado ao Ministério da Saúde para minimizar esses danos.
Segundo o Ministério da Saúde, nos últimos cinco anos, foi registrado um aumento de 140% na busca por atendimento no SUS por causa da dependência de apostas online e jogos de azar. De acordo com o diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, o crescimento foi registrado em toda a Rede de Atenção Psicossocial. Segundo ele, com foco nessa procura, foi lançado o serviço de teleatendimento voltado para pessoas com problemas relacionados a jogos e apotas.
“Desde fevereiro deste ano, quando nós criamos uma porta de entrada para atendimentos a jogos e apostas de forma eletrônica, nós tivemos uma procura de 20 mil pessoas que se cadastraram após fazerem um teste”. Diante da alta procura, a capacidade foi ampliada recentemente de 600 para até 100 mil tele-atendimentos mensais, em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS).
O diretor diz que outro indicativo do crescimento do problema com jogos e apostas vem da plataforma de auto exclusão, lançada pelo Ministério da Fazenda. Até agora, bloqueados mais de 5 milhões de CPFs em sites de apostas online autorizados a operar pelo governo federal.
Dados do Fundo das Nações Unidas para a infância (Unicef) mostram que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar em jogos online até os 11 anos de idade. O número chega a 78% a partir de 12 anos.
Atendimentos por mês em psicologia e psiquiatria nos Caps
Janeiro: 5.036
Fevereiro: 5.172
Março: 6.854
Abril: 5.154
Maio: 6.018
Junho: 3.746
Julho: 2.814
Agosto: 4.092
Setembro (até dia 22): 2.915
Total: 41.801

