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Ribeirão Preto e o antigo problema das árvores

Apesar da destruição com a força dos ventos e dos problemas arbóreos da cidade, a natureza surpreende | Foto: Alfredo Risk

Por Adalberto Luque

 

O vendaval que atingiu Ribeirão Preto na madrugada de 24 de julho deixou uma cidade parcialmente paralisada e expôs, em poucas horas, o impacto da queda de árvores sobre ruas, imóveis, serviços públicos e moradores. A tempestade provocou duas mortes, deixou feridos e desabrigados e derrubou árvores em diferentes regiões.

Na estação meteorológica do Aeroporto Leite Lopes, a Defesa Civil registrou ventos de até 70 km/h às 5h40 e cerca de 24 milímetros de chuva em 20 minutos. Em alguns pontos da região, as rajadas chegaram a 120 km/h. O fenômeno foi posteriormente descrito como uma microexplosão.

O primeiro registro de morte ocorreu no bairro Salgado Filho, na zona Norte. Um homem de 75 anos morreu depois que a residência onde estava desabou durante o temporal, na rua Santo Barban, Jardim Salgado Filho, zona Oeste da cidade. Uma segunda vítima fatal foi localizada dias depois, quando o corpo de um homem de 44 anos foi encontrado sob os escombros de um imóvel abandonado na avenida Patriarca, na Vila Virgínia.

Mais de 4.100 caminhões com troncos e massa verde já foram retirados das ruas da cidade, mas ainda falta e MP está fiscalizando | Foto: Alfredo Risk

Segundo a Polícia Militar, o homem vivia em situação de rua e estava desaparecido desde o vendaval. O irmão da vítima foi ao galpão onde ela costumava permanecer e, ao perceber um forte odor, acionou o Corpo de Bombeiros. Durante as buscas, os bombeiros encontraram o corpo em avançado estado de decomposição.

Os efeitos do vendaval, porém, não ficaram restritos às árvores. O Corpo de Bombeiros contabilizou cerca de 250 ocorrências até o fim da manhã do dia 24, a maioria relacionada à queda de árvores. Ruas e avenidas foram bloqueadas, mais de 50 semáforos ficaram desligados ou danificados e houve deslocamento de tampas de bueiros e poços de visita pela força da enxurrada.

Três subestações ficaram fora de operação e 14 torres de transmissão foram atingidas pelos ventos, segundo a CPFL. Dos 123 poços artesianos que abastecem a cidade, 39 ficaram paralisados por falta de energia, comprometendo o fornecimento de água em diferentes bairros. Várias casas e empresas ficaram sem energia por várias horas.

Hospitais também sofreram impactos. A Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas precisou interromper temporariamente o recebimento de pacientes, enquanto o Hospital Santa Lydia passou a operar com geradores após a interrupção do fornecimento de energia.

Um centro de treinamento na avenida Antônio e Helena Zerrenner, na Vila Amélia, teve a estrutura destruída, enquanto o Centro POP sofreu danos no telhado e precisou suspender as atividades para avaliação técnica.

Os prejuízos foram estimados inicialmente em R$ 21,1 milhões apenas para ações de zeladoria urbana. Entre os serviços previstos estavam limpeza emergencial, remoção de resíduos, recolhimento de massa verde, lavagem de vias, praças e áreas públicas, corte e poda de árvores, destocamento e extração de troncos.

O volume de árvores atingidas começou a ser dimensionado pela Secretaria de Meio Ambiente, Agricultura e Sustentabilidade. Segundo a secretária da pasta, Mariana Rodrigues Sargento, o levantamento contabilizou 2.648 árvores afetadas pelo vendaval em toda a cidade, incluindo a área da USP-RP, onde estima-se terem sido atingidas cerca de 600 árvores. A universidade, porém, possui gestão estadual e faz a limpeza e a manutenção de seu próprio espaço.

4.120 caminhões

De acordo com Mariana, todo o material recolhido pela Prefeitura é levado ao Transbordo Municipal, na área conhecida como Pica Galho. No local, os resíduos são picados e transformados em cavaco, material utilizado principalmente para plantio.

Entre 24 de julho e 23 de agosto, foram retirados 4.120 caminhões somente de resíduos verdes da cidade, segundo a secretária. A média mensal de recolhimento é de aproximadamente 2 mil caminhões, o que mostra o volume de material acumulado após o vendaval.

Segundo a secretária Mariana Sargento, mais de 2.600 árvores caíram, mas ela garante que a pasta já estuda o replantio | Foto: Alfredo Risk

A secretária informou ainda que a pasta já estuda o replantio das árvores atingidas. O planejamento está em elaboração e será coordenado a partir do levantamento dos pontos mais afetados pelas quedas. O plantio será feito por meio do programa Click Árvore, com a previsão de escolha adequada dos locais e das espécies.

A administração municipal também informa que tem como objetivo ampliar a arborização urbana para alcançar 30% de cobertura arbórea. Antes do vendaval, segundo Mariana, mais de 34 mil mudas já haviam sido plantadas por meio dos programas Planta Aí Ribeirão, executado pela própria secretaria, e Click Árvore, que permite aos moradores solicitar o plantio de mudas nas calçadas.

Acordo com o MP

Quase um mês após o vendaval, o Ministério Público e a Prefeitura acordaram prazo de 20 dias para a limpeza de praças e canteiros de avenidas que ainda acumulam galhos. O cronograma prioriza áreas com maior densidade populacional e prevê ações nas praças Luís de Camões, Milton Visconti e Maria Goretti, além de medidas de acompanhamento e manutenção.

Passados pouco mais de um mês do segundo grande vendaval da história de Ribeirão Preto, a cidade ainda sofre com os impactos. E ainda há muito por fazer para minimizar o problema.

Menos árvores altera microclima

A redução da cobertura arbórea em áreas urbanas pode provocar alterações no microclima, principalmente com aumento das temperaturas, redução da umidade e piora do conforto térmico da população. A avaliação é do meteorologista William Minhoto, da Defesa Civil do Estado de São Paulo, que analisou os possíveis efeitos da perda de árvores após o vendaval que atingiu Ribeirão Preto.

Segundo Minhoto, a vegetação exerce papel importante na regulação da temperatura por meio do sombreamento e da evapotranspiração. Esses processos ajudam a reduzir o aquecimento das superfícies e do ar próximo ao solo.

Com a retirada das árvores, aumenta a exposição do solo, das edificações e das áreas pavimentadas à radiação solar. Essas superfícies passam a absorver e armazenar mais energia durante o dia, favorecendo a elevação das temperaturas, principalmente no período da tarde.

O meteorologista da Defesa Civil do Estado, William Minhoto, alerta que a redução da cobertura arbórea em áreas urbanas pode provocar aumento da temperatura, redução da umidade e desconforto térmico | Foto: Defesa Civil/Divulgação

Durante a noite, parte do calor acumulado é liberado gradualmente para a atmosfera. De acordo com o meteorologista, isso pode contribuir para temperaturas mais elevadas e intensificar localmente o efeito de ilha de calor urbana.

A redução da vegetação também interfere na umidade. “A diminuição da vegetação reduz a evapotranspiração e, consequentemente, a quantidade de vapor d’água transferida para a atmosfera”, explica Minhoto. Com isso, o ambiente pode ficar mais quente e relativamente mais seco, especialmente durante períodos de estiagem e temperaturas elevadas.

Outro impacto está relacionado ao conforto térmico. Com menos árvores, diminuem as áreas de sombra e aumenta a exposição das pessoas à radiação solar direta. Dependendo da extensão e das características da área atingida, também podem ocorrer alterações na circulação local dos ventos e no balanço de energia entre a superfície e a atmosfera.

Minhoto ressalta que a retirada de árvores em uma área específica não é suficiente, isoladamente, para modificar o clima de uma cidade inteira. Porém, uma redução expressiva e distribuída da cobertura vegetal pode produzir efeitos mensuráveis sobre o microclima urbano, com reflexos nas temperaturas, na umidade, no armazenamento de calor pelas superfícies e no conforto térmico da população.

 Velhos problemas

Antes do vendaval de 24 de julho, Ribeirão Preto já contava com um diagnóstico sobre as condições de parte de sua arborização. O Inventário Amostral da Arborização de Acompanhamento Viário, elaborado pela Prefeitura em 2022, percorreu 290,86 quilômetros de vias, equivalentes a 10% da malha urbana, e registrou 26.669 árvores ou arbustos, distribuídos em 342 espécies.

Embora 96,3% das árvores tenham sido classificadas em condição fitossanitária boa ou excelente, o levantamento apontou problemas principalmente relacionados ao manejo. O relatório considerou insatisfatória a condição geral da arborização viária em razão, sobretudo, de podas inadequadas.

Entre os exemplares analisados, 9.603 tinham indicação de poda de condução, 7.161 de poda de correção, 1.920 de levantamento de copa e 739 de extração. Somadas, as quatro categorias representavam 19.423 intervenções.

Inventário aponta que região central é a menos arborizada da cidade, com apenas 3,58% de cobertura vegetal | Foto: Alfredo Risk

O estudo também identificou 1.273 árvores, ou 4,8% da amostra, com doenças ou infestações por parasitas. Parte dos problemas foi relacionada a podas mal executadas, que poderiam facilitar a entrada de parasitas, como formigas e cupins.

A relação entre árvores e calçadas também apareceu no levantamento. Foram encontrados 2.854 exemplares, equivalentes a 10,7% da amostra, que provocavam algum tipo de dano ao calçamento. Outras 558 árvores tinham o colo totalmente impermeabilizado.

Ao mesmo tempo, havia espaço para ampliar a arborização. O inventário identificou 28.811 locais considerados adequados para novos plantios, número superior ao de árvores registradas.

Ações antes do vendaval

Os dados do inventário serviram de referência para ações posteriores de manejo. Antes do vendaval, a Prefeitura informou que a média diária de podas havia passado de 152 para 168. No primeiro semestre de 2026, 62 novos podadores foram capacitados e credenciados pelo município.

Também houve novos plantios. Entre janeiro e junho de 2026, o programa Click Árvore realizou aproximadamente 1.500 plantios em calçadas, segundo a Prefeitura.

O inventário, elaborado com dados coletados em outubro de 2021, também apontou diferenças entre as regiões. A cobertura vegetal calculada no perímetro urbano analisado era de 12,71%, sendo de 15,79% na região Sul, 13,54% na Oeste, 11,39% na Norte, 11,34% na Leste e 3,58% na região Central.

O primeiro vendaval

Na noite de 14 de maio de 1994, Ribeirão Preto enfrentou o primeiro grande vendaval de sua história recente. O fenômeno climático, considerado raro e extremamente violento, começou por volta das 23h40 e durou menos de dez minutos. Foi tempo suficiente para deixar três mortos, 132 feridos e mais de 600 desabrigados.

A tempestade ocorreu quando uma frente fria se chocou com uma massa de ar quente, com diferença de temperatura superior a 20 graus. A combinação provocou a formação de nuvens carregadas e vários tornados, com correntes de vento superiores a 100 km/h, além de forte chuva de granizo.

Mais de 5 mil imóveis residenciais e comerciais foram atingidos. Cerca de 60% da cidade ficou sem energia elétrica e também houve interrupção no abastecimento de água. O prejuízo foi estimado, na época, em US$ 6 milhões. As regiões Norte, Centro e Oeste concentraram os maiores estragos, mas também houve ocorrências nas zonas Sul e Leste.

As árvores estiveram entre os elementos mais atingidos. Muitas foram arrancadas ou tiveram galhos quebrados pela força dos ventos. Ruas ficaram tomadas por galhos, folhas e outros destroços, enquanto calhas e rufos foram parar sobre a rede elétrica. Em alguns bairros, o granizo formou camadas de gelo de até 40 centímetros.

Outro grande vendaval, registrado em 1994, deixou três mortos e um enorme rastro de destruição | Foto: Reprodução

O impacto sobre a vegetação também foi registrado pela morte de milhares de andorinhas, atingidas pelo granizo nas proximidades do Terminal Rodoviário. Jornalistas que acompanharam a reconstrução relataram árvores praticamente sem folhas e o chão coberto pelas aves mortas.

O então prefeito Antônio Palocci Filho decretou Estado de Calamidade Pública. No dia seguinte, o governador Luiz Antônio Fleury Filho sobrevoou a cidade e liberou US$ 1 milhão em caráter emergencial. A reconstrução envolveu poder público, moradores, empresas e voluntários.

O vendaval de 1994 ficou registrado na memória de quem viveu a tragédia e também mostrou a dimensão que eventos climáticos extremos podem alcançar em Ribeirão Preto, com impactos diretos sobre a arborização, a rede elétrica, o abastecimento de água, os imóveis e a mobilidade urbana.

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