André Luiz da Silva *
[email protected]
Em tempos de relações apressadas, rotinas sufocantes e silêncios cada vez mais profundos, falar sobre saúde mental deixou de ser apenas uma necessidade médica ou jurídica. Tornou-se um gesto de humanidade. Ainda assim, o tema segue cercado por preconceitos, desinformação e, muitas vezes, pela indiferença de setores da sociedade que insistem em tratar o sofrimento psíquico como fragilidade individual, e não como uma questão coletiva.
Recentemente, fui convidado a prefaciar a mais nova obra de João Maluf Franco — “Saúde Mental, Responsabilidade e Direitos: Entre o sofrimento psíquico, a dignidade humana e os limites éticos do cuidado contemporâneo”. Encontrei ali um texto que ultrapassa o debate técnico e alcança uma das discussões mais urgentes da atualidade: os limites éticos, sociais e jurídicos que envolvem a saúde mental.
Embora nossas trajetórias estejam ligadas ao Direito e à área da saúde, foi no trabalho comunitário, por meio do Rotary Club de Ribeirão Preto-Jardim Paulista e da Academia Brasileira Rotária de Letras do Distrito 4.540, que pude conhecer de perto a seriedade intelectual, a sensibilidade social e o compromisso humanista que marcam a atuação de João Maluf Franco.
Desde as primeiras páginas, percebe-se que a obra vai além de uma análise jurídica ou clínica. O autor propõe uma reflexão ampla sobre a forma como a sociedade compreende, acolhe e protege pessoas em sofrimento psíquico, especialmente diante dos desafios relacionados à dignidade humana e à efetivação de direitos fundamentais.
A leitura também me remete ao período em que atuei como secretário do Conselho Municipal de Reforma Psiquiátrica de Ribeirão Preto, momento marcado por debates intensos sobre a consolidação da reforma psiquiátrica brasileira e pela superação de práticas historicamente excludentes.
Talvez por isso o livro provoque tanto. Porque ele nos obriga a olhar para além dos diagnósticos e das estatísticas. Faz lembrar daquele vizinho que mudou o comportamento e passou a ser evitado, do amigo que se isolou sem que ninguém percebesse, da família que enfrenta, em silêncio, a dor de não saber como ajudar alguém em sofrimento emocional.
Vivemos numa sociedade que aprendeu a exigir produtividade, mas ainda encontra dificuldade em acolher vulnerabilidades. Há pressa para julgar, pouca disposição para ouvir e um perigoso hábito de transformar dores humanas em fraquezas morais ou respostas exclusivamente medicamentosas.
João Maluf Franco percorre esse cenário com equilíbrio e sensibilidade. Ao abordar temas como internações psiquiátricas, judicialização da saúde, medicalização excessiva e o papel da espiritualidade, não oferece respostas simplistas. Oferece algo mais raro: reflexão.
E talvez seja exatamente disso que mais precisamos atualmente. Refletir sobre como tratamos quem sofre. Sobre quantas vezes o preconceito fala mais alto que a empatia. Sobre quantas pessoas continuam invisíveis porque ainda confundimos saúde mental com falta de força ou ausência de fé.
Ao final da leitura, fica a sensação de que cuidar da saúde mental é, antes de tudo, um exercício de responsabilidade coletiva. Não basta defender políticas públicas eficientes se continuarmos incapazes de acolher, escutar e compreender o outro em sua fragilidade.
Mais do que um livro, a obra de João Maluf Franco surge como um convite à consciência. Um chamado para que a sociedade abandone antigos estigmas e compreenda que dignidade, respeito e cuidado também são formas de preservar vidas.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

