Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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Há dois anos lancei um livro e amigos me ajudaram na divulgação. A diretora de uma empresa permitiu que eu escrevesse uma mensagem apresentando a obra, para que ela postasse no grupo da corporação. Fiz uma mensagem bem curtinha, própria para WhatsApp. A seguir, ela me sugeriu um vídeo, pois as pessoas não leem as mensagens. Ué, mas se não leem mensagens curtas, como vão ler o livro?
Minha amiga tem razão: quase ninguém lê as mensagens que recebe. Tente marcar um encontro. Escreva tudo direitinho: dia, horário. Envie o link do local. Respostas comuns: “que legal adooooro quando amiga”; “adorei a proposta querida onde”. A mensagem vem assim mesmo, sem pontuação. A coitada da amiga que identifique o que é afirmação e o que é pergunta. Ah, o link não será aberto.
Tentam me convencer de que isso ocorre devido à falta de tempo. É porque hoje temos muitos compromissos, sabe? Não dá tempo pra nada, nem para colocar acento gráfico. E fica igual a é; país é pais; ai = aí; coco = cocô. O argumento é que o contexto resolve tudo, o que cria uma situação doida. Ou doída?
Como o contexto não dá conta, a pessoa envia outra mensagem para esclarecer o que ela quis dizer, mas novamente ela não relê antes de enviar, e isso gera ainda mais ruídos de comunicação e mais mensagens. Jura que é falta de tempo?
Quando parece que a babel não pode piorar, inventam outro estorvo.A falta de tempo para ler migrou também para a falta de tempo para escutar. Não raramente as pessoas se comunicam por áudio, ouvidos na velocidade 2x. Com o tempo esse recurso será dispensável, pois, de tanto ouvir mensagens aceleradas, as pessoas falarão com rapidez, engolindo sílabas e palavras, como alguns já aprenderam.
O pior é que uma prática nunca fica confinada apenas a uma situação específica. Facilmente ela se fixa como hábito e migra para outras situações. A pressa na comunicação vazou para todos os procedimentos da vida cotidiana. Já percebeu como os carros nem sempre param no semáforo? As motos, então, buzinam e seguem.
A suposta escassez de tempo afeta a saúde. Como as pessoas não prestam atenção ao que estão fazendo, não criam memória. Convites com antecedência não serão lembrados e, em cima da hora, bem: não dá tempo. Dormir, então, nem pensar. Sonhar, nunca, nem acordado. A ciência já vaticinou aumento de demências, originado desse cenário.
A justificativa é sempre a mesma: falta de tempo. É fato que o ritmo de vida se acelerou muito com as tecnologias digitais. Mas é a pessoa quem decide se as notificações ficarão ativadas ou não. É ela quem opta por acessar mensagens e redes sociais a todo momento, no relógio de pulso. É ela mesma quem decide passar a maior parte do dia (e da noite) assistindo a vídeos sem nenhuma relação com seus objetivos de vida.
A aceleração não está no tempo em si, mas nas escolhas. Claro que cada um define os próprios passos e o ritmo deles. Entretanto, viver ligado no 220 só apressa a morte. A inteligência digital ainda não alterou as necessidades humanas básicas: o corpo precisa de exercício regular, alimentação adequada, descanso. O cérebro precisa relaxar e fazer a limpeza mental diária. Contato social e relacionamentos saudáveis são imprescindíveis para uma vida que vale a pena.
Jura que é falta de tempo? Parece falta de desejo. Falta de comprometimento com a própria vida. Falta de clareza da grandiosidade da experiência humana. Da raridade que é estar vivo. Da brevidade da vida. Da consciência de que a vida é feita de tempo. Da certeza de que aprender a usufruir das 24h diárias é fruto de maturidade emocional.
Penso que não é falta de tempo, mas de prioridades. Sem prioridades, é mais fácil se desorganizar. Tudo pode entrar na agenda, porque não há necessidades, projetos, planos. Então, só resta fazer o tempo passar, gastá-lo, de preferência com distrações vazias. Nesse caso, sair de um vídeo curto e rápido para outro torna-se um vício: vou ver só mais um, só um pouquinho mais de dopamina.Essa atitude leva à hiperestimulação prejudicial ao cérebro, que perde a capacidade de concentração prolongada. Ler um livro? Nem pensar!
Para refletir sobre o tempo, finalizo com uma das preciosidades da literatura brasileira contemporânea: Lavoura arcaica, de Raduan Nassar. É um texto que não se revela rapidamente, que exige maturação, como tudo o que é importante na vida. O trecho é o discurso do pai para os filhos:
“[…]rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores, e não a sua ira […]”
* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

