Antonio Carlos A. Gama *
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Esta questão do conhecimento da verdade, na poesia, é tormentosa. A admitir-se que o poeta que mais sabe melhores poemas faz, teríamos de reconhecer que Homero ou Virgílio são muito inferiores a qualquer poetinha de hoje, servido por vastos conhecimentos de toda sorte, e que pode ainda, na dúvida, recorrer às enciclopédias, à internet ou até à inteligência artificial. E Camões, Dante ou Shakespeare, com a ciência rudimentar da sua época, foram brutos.
Não obstante, a poesia é conhecimento, um conhecimento que vai além de todos os outros, porque está na alma. Mais do que isso: a poesia é uma forma de conhecimento que se envolve principalmente no mistério, e o poeta não é aquele que responde, mas pergunta.
“As palavras estão aí,
uma a uma.
Porém, minha alma sabe mais,”
dizia Cecília Meireles.
Talvez o poema seja antes um “reconhecimento”, do que um conhecimento. E cada poeta, cada leitor de poemas, têm obscuramente a sensação de se encontrar numa casa ao mesmo tempo vazia e cheia, quando se entrega à poesia, ou é por ela perpassado. O que o poeta diz, diz para si mesmo; no entanto, a sua linguagem é a que todos falavam, e em que se compreendiam, antes da confusão das línguas na Torre de Babel.
Todas as coisas falam, na poesia. Fala a rosa, fala o rumor do vento, falam as águas do mar, fala o penedo, fala a chuva e, sobretudo, fala o silêncio. Um poeta que não sabe o silêncio, que desconhece a página em branco e o deserto, está aquém da poesia.
Outra questão muito complexa, na poesia, é o hermetismo. Sem dúvida que há poemas ou versos completamente incompreensíveis. E não é que o poeta não queira fazer-se compreender. Mas, de um modo ou de outro, a poesia é uma linguagem secreta. Os leitores do poema precisam aprendê-la, e alguns não conseguem. Demais disso, a variedade de interpretações que se pode dar a um poema, ou a um só verso, é espantosa.
Que espécie de conhecimento poderia ser o que se obtém através, ou pela poesia?
Pretendem alguns que é um conhecimento inefável. A poesia, porém, se faz com o poema, e o poema é fabricado com as palavras. Ora, as palavras são ambíguas, multívocas, podem significar muitas coisas, e nenhuma. E não se faz um poema com uma só palavra, mas geralmente com muitas, que irão compor a frase, o verso ou os versos. Por mais exíguo, ou breve, que seja o poema, ele chega, no máximo, a um só verso, ou ao haikai. Neste, em geral há uma insinuação, uma sugestão. Veja-se este haikai, de Guilherme de Almeida, que o cultivou de forma rigorosa:
Velhice
Uma folha morta.
Um galho, no céu grisalho.
Fecho a minha porta.
A explicação deste poema está no título; os três versos são apenas metáforas. Se não fosse o título, “velhice”, poder-se-ia dar ao poema outras interpretações. Por outro lado, qualquer poema, não se explica, ou o cada leitor o explica.
Carlos Drummond de Andrade, que não cultivou o haikai, ainda no seu primeiro livro (Alguma poesia), quando os modernistas e aderentes se achavam numa fase de combate, e eram reiterados os “poemas-piadas”, tem alguma coisa semelhante ao haikai:
Cota zero
Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?
E ainda:
Bahia
É preciso fazer um poema sobre a Bahia…
Mas eu nunca fui lá.
Mais tarde ele chegaria à conclusão de que os poetas não precisam ir à Bahia, para fazer um poema sobre a Bahia.
Portanto, os poetas não necessitam ter conhecimento exato sobre coisa nenhuma, por experiência própria, para fazer poemas sobre tudo. Nem será preciso lembrar Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor…”
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

