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Entre o riso e os desafios da palhaçaria

Integrantes da Trupe Tópatu transformaram a palhaçaria em profissão e dividem a rotina entre criação, ensaios, produção e viagens | Divulgação

Um tropeço calculado, uma careta ou uma tentativa desajeitada de resolver algo simples podem render boas ideias na vida de quem trabalha com palhaçaria. Observar situações cotidianas, brincar com o inesperado e encontrar graça nas próprias características fazem parte de uma profissão que tem no encontro com o público uma de suas principais razões de existir.

Criada em São Carlos, em 2017, a Trupe Tópatu é formada por Bruno Garbuio, Daniele Busatto e Marcel Fatibello. Além da criação e da atuação nos espetáculos, os integrantes dividem atividades de produção, como elaboração de projetos, participação em editais, organização de viagens e negociação de apresentações.

Para Bruno, de 34 anos, as primeiras pistas da escolha profissional surgiram nos encontros familiares e no gosto por fingir tropeços quando era menino. “Venho de uma família de riso frouxo. De gente que gosta de sentar na mesa do almoço e fazer piadas”, conta.

Daniele, de 40 anos, conheceu a palhaçaria enquanto cursava Fisioterapia. Em 2007, começou a frequentar uma escola mantida por uma família circense em Ribeirão Preto. Mesmo depois de concluir a graduação, continuou envolvida com essa linguagem artística. Em 2010, decidiu trocar de profissão e se dedicar à carreira nos palcos.

As experiências dos dois mostram caminhos diferentes até a palhaçaria. Em comum, estão o interesse pela observação das pessoas, o trabalho corporal e o aprendizado construído em cursos, treinamentos, ensaios e apresentações.

A graça pode estar no próprio espelho

Na criação de um palhaço, olhar para si mesmo é parte do trabalho. Exageros, fragilidades e pequenas manias oferecem possibilidades para a cena. Mais do que inventar uma figura engraçada, o artista procura descobrir como seu modo particular de reagir ao mundo pode ser compartilhado com o público.

Criado em 2022, “Três Pratos de Trigo para Três Palhaces Tristes” aborda cansaço, exaustão e saúde mental por meio da palhaçaria | Divulgação

“De perto todo mundo é bem ridículo. Dar risada disso, abraçar nosso ridículo revela muita coisa da gente”, diz Bruno. Para ele, reconhecer e brincar com essas características é uma das primeiras sementes da palhaçaria.

Daniele explica que esse processo não segue uma fórmula pronta nem termina quando o artista encontra um figurino ou define um personagem. As experiências acumuladas ao longo da vida e da carreira passam a integrar o repertório. Ela define esse aprendizado como um exercício permanente de conhecer-se e desconstruir-se.

O resultado dessa pesquisa pode aparecer em uma reação, em um gesto ou em uma pausa. Para chegar a esses momentos, porém, é necessário testar, repetir e ensaiar. O que parece espontâneo também depende da intimidade com o próprio corpo e com a cena, construída ao longo do trabalho.

Segundo os artistas, fazer rir não significa acordar bem-humorado todos os dias. O palhaço também enfrenta preocupações, cansaço e momentos nos quais a graça parece mais distante. Nessas ocasiões, a formação e a preparação ajudam a sustentar o espetáculo. “Antes de sermos palhaços, somos pessoas em um ofício”, afirma Bruno.

O nariz vermelho também tem agenda

Fora do palco, a rotina inclui atividades comuns a profissionais de diferentes áreas. Há mensagens para responder, horários para conciliar, ensaios para organizar e viagens para planejar. Também é necessário elaborar propostas, inscrever projetos em editais públicos de fomento e buscar espaços para apresentar os espetáculos.

Bruno e Daniele dividem parte dessas tarefas na Trupe Tópatu. Nos períodos de criação, a agenda pode reunir vários ensaios durante a semana e encontros intensivos aos sábados e domingos. Depois da estreia, começa o trabalho para manter a peça em circulação.

“O maior desafio está em manter as peças vivas. Seja artisticamente, com o rigor que elas exigem, ou financeiramente, com suas vendas e circulação”, explica Bruno.

Como ocorre com muitos profissionais da cultura, nem sempre a próxima apresentação está garantida. Marcel Fatibello, de 41 anos, diz que a instabilidade faz parte de sua carreira desde o início. Daniele destaca a importância das políticas de incentivo para remunerar artistas e técnicos e permitir que espetáculos e oficinas sejam oferecidos gratuitamente.

A circulação atual da trupe foi contemplada pelo edital Fomento CultSP, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc. O projeto prevê apresentações, oficinas de introdução à palhaçaria e recursos de acessibilidade em cidades paulistas.

Cada viagem também proporciona o contato com uma plateia diferente. Embora a estrutura do espetáculo seja mantida, as reações do público interferem no ritmo da apresentação e ajudam os artistas a descobrir novas possibilidades dentro da mesma história.

Quando o riso provoca reflexão

A resposta da plateia pode surgir em uma gargalhada inesperada ou em uma conversa depois dos aplausos. Bruno recorda o encontro com uma professora após uma apresentação de “Três Pratos de Trigo para Três Palhaces Tristes”, no Sesc Santo Amaro, na capital paulista.

Por meio de situações cômicas e metáforas, a montagem trata de cansaço, exaustão, saúde mental e dos bastidores do trabalho circense.

A professora, embora aposentada, ainda lecionava e enfrentava dúvidas sobre o encerramento daquela etapa profissional. Depois do espetáculo, procurou o grupo com os olhos marejados, agradeceu à trupe e contou que a história a havia levado a refletir sobre o momento que vivia e sobre a possibilidade de buscar novos caminhos.

Espetáculo percorre 16 cidades paulistas

Segundo a produção, a circulação de “Três Pratos de Trigo para Três Palhaces Tristes” prevê 25 apresentações e 16 oficinas gratuitas em 16 municípios paulistas até o final de 2027.

Bruno Garbuio, Daniele Busatto e Marcel Fatibello formam a Trupe Tópatu, criada em São Carlos em 2017 | Divulgação

Na montagem, a palhaça Tatah e os palhaços Astolfo e Orelhão revelam os bastidores da Trupe Tópatu. Longe dos holofotes, os personagens convivem com cansaço, exaustão e dificuldades para encontrar felicidade em meio à rotina.

O espetáculo tem 55 minutos e classificação indicativa de 12 anos. As oficinas de introdução à palhaçaria são destinadas a pessoas a partir de 16 anos e têm três horas de duração. A programação prevê audiodescrição, visita guiada ao cenário e bate-papos com interpretação em Libras.

Depois da abertura da circulação em Porto Ferreira, a trupe se apresenta em Analândia em 6 de novembro. Ribeirão Preto também está prevista no roteiro, mas a data ainda não foi anunciada.

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