Maurílio Biagi Filho, empresário e membro do Instituto Ribeirão 2030
Esperei alguns dias para escrever sobre as eleições. Não por falta de assunto, muito menos por falta de opinião. Mas porque, diante de tudo o que vimos durante a campanha e, principalmente, depois da divulgação dos resultados, achei prudente deixar a poeira baixar. Há momentos em que a distância ajuda a enxergar melhor os acontecimentos.
Se alguém tivesse apresentado a um produtor de Hollywood um roteiro com tudo o que aconteceu nas últimas semanas, provavelmente ouviria que a história era exagerada demais para parecer verdadeira. Tivemos de tudo: reviravoltas, acusações, personagens improváveis, cenas cinematográficas e desfechos que desafiaram até a imaginação mais criativa. Material suficiente para disputar alguns Oscars. Infelizmente, não estamos falando de ficção, mas da democracia brasileira.
O que mais me incomodou, entretanto, não foram apenas os episódios que ganharam as manchetes. Foi o ambiente que se criou ao longo de toda a campanha. A quantidade vergonhosa de notícias falsas, vídeos manipulados e informações sem qualquer compromisso com a verdade. Eram tantas avalanches de informação que até eu acabei repassando algumas fake News em grupos. Debates que, em vez de apresentar propostas para o país, transformaram-se em espetáculos de acusações e ofensas pessoais. Discussões que ultrapassaram os palanques e invadiram grupos de amigos, reuniões familiares e relações construídas ao longo de décadas. E então veio o pós-eleição, que conseguiu ser ainda mais surpreendente.
Mas não quero me ater a isso porque já foi muito explorado e não vai contribuir. Temos que pensar daqui para frente. As autoridades eleitorais reconheceram a legitimidade do resultado. Podemos gostar ou não de quem venceu. Podemos discordar de suas ideias, questionar suas propostas e exercer uma oposição firme. Tudo isso faz parte da democracia. O que não podemos é transformar a insatisfação eleitoral em uma recusa permanente de aceitar a realidade.
A eleição acabou. Quem ganhou já comemorou. Quem perdeu já chorou. E o Brasil continua aqui, com seus problemas, suas oportunidades e uma população que espera muito mais de seus representantes. Temos desafios urgentes na economia, na educação, na saúde, na segurança pública, na infraestrutura, no Agro e na competitividade do país. Há decisões importantes que precisam ser tomadas ainda este ano. E, para enfrentá-las, temos que descer do palanque, e o primeiro a fazer isso tem que ser o que tem mais poder, ou seja, quem foi eleito. Pacificar o país não é uma opção, é uma necessidade fundamental, e acredito que os governantes eleitos já entenderam esse recado das urnas.
A oposição, precisa refletir sobre o tamanho de sua responsabilidade. Conquistou uma representação parlamentar expressiva, elegeu governadores e reúne condições políticas para influenciar os rumos do país. Não lhe faltam instrumentos democráticos para defender suas convicções, apresentar projetos, fiscalizar o governo e construir alternativas. Dialogar é a palavra chave.
Não dá para desperdiçar essa força alimentando teorias conspiratórias, listas de boicote, campanhas de hostilidade e disputas intermináveis nas redes sociais. Oposição não se faz apenas com indignação. Faz-se com trabalho, propostas, articulação política e capacidade de convencer a sociedade e o governo.
E isso vale, evidentemente, para todos os campos políticos. Quem venceu precisa compreender que não recebeu um cheque em branco. Governar exige diálogo, responsabilidade e respeito também por aqueles que votaram de maneira diferente. O Brasil está dividido, uma vitória eleitoral não autoriza ninguém a tratar metade do país como adversária permanente.
Tenho defendido há muito tempo que o Brasil precisa de projetos que sobrevivam aos governos e às disputas partidárias. Países que avançam conseguem estabelecer prioridades de longo prazo, preservar conquistas e corrigir rumos sem precisar começar tudo novamente a cada eleição.
É disso que deveríamos estar falando. Que educação queremos oferecer às próximas gerações? Como aumentar nossa produtividade? Como criar um ambiente mais favorável aos investimentos? Como modernizar o Estado, reduzir a burocracia e gerar oportunidades? Como aproveitar melhor o enorme potencial do agronegócio, da indústria, da tecnologia e da energia brasileira? E, principalmente, como fazer um ajuste fiscal, sem penalizar os setores produtivos.
Talvez essa seja uma das maiores lições que podemos tirar das eleições de 2026. A radicalização pode mobilizar multidões, mas não é suficiente para construir uma nação. A desinformação pode render milhões de visualizações, mas não resolve um único problema concreto. E o ódio, por mais que produza engajamento, jamais será um programa de governo.
Ao longo da vida, aprendi que divergências são inevitáveis e, muitas vezes, necessárias. Na política, nos negócios e nas relações humanas, ninguém cresce ouvindo apenas aqueles que concordam com tudo. Mas também aprendi que é preciso saber a hora de encerrar uma disputa e começar a construir. E pelas movimentações que estou vendo, parece que o governo está disposto a seguir nessa linha. Tenho sentido da oposição mais radical uma disposição a mudar de postura, bem como da esquerda radical uma vontade de dialogar. Que isso prevaleça.
O Brasil não pode passar os próximos quatro anos vivendo uma eleição polarizada que já terminou. Temos trabalho demais pela frente e tempo de menos para desperdiçar. Que os vencedores tenham grandeza para governar. Que os derrotados tenham maturidade para fazer oposição. E que todos nós tenhamos sabedoria para compreender que o Brasil é muito maior do que qualquer candidato, partido ou resultado eleitoral. Afinal, o verdadeiro compromisso de uma liderança não deveria ser com a próxima eleição, mas com as próximas gerações.

