Antonio Carlos A. Gama *
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Pousou a pasta de couro no soalho e foi correr a cortina que envolvia de penumbra a salinha. Estava indignado: não recebera ainda a diferença a que tinha direito da sua aposentadoria do INSS, uma miséria, mas enfim… Outros colegas seus já tinham exibido as cédulas a mais, triunfantes. Mas com ele era sempre assim, tudo dava errado, tardava, ou era preciso reclamar, discutir. Neste país, alguns são mais iguais que os iguais.
Não tinha ouvido o arrastar dos chinelinhos de Maria José, ao chegar em casa. Provavelmente, ela estaria na vizinhança, ou fora ao supermercado, fazer alguma compra.
Foi beber um café na cozinha, e em seguida acendeu o cigarro. Aí está: aquele vício, além de fazer mal para a saúde, sugava o orçamento familiar. Havia também uma cervejinha de vez em quando, e os miúdos para o jogo do bicho, sem nunca ter acertado no milhar.
A classe média baixa, que pretendia ascender à mais alta, do subúrbio para um bairro de mais conforto…. Mas a casa própria tinha uma vantagem, ainda que financiada: se morresse antes de pagar tudo, resgatava-se a dívida. No entanto, os banqueiros é que se locupletavam, esses canalhas.
Escutou o barulho do portãozinho de ferro rangendo ao abrir-se. Era Maria José que chegava. Parou logo depois de entrar, com um pacote debaixo do braço, os olhos esgazeados, como previra:
— E então?
— Então, nada!
— Mas não é possível!
— Para você ver…
Sentaram-se ao redor da mesa da copa, ela acertou a toalha xadrezinho que pendia mais para um lado. Olharam-se, desanimados, quase derrotados.
Pegou-lhe na mão. A mão maltratada, as unhas cortadas quase rentes, sem esmalte.
Lembrava-se, ah, se se lembrava, Maria José aos vinte anos! O corpo, meu Deus, aquele corpo com a cintura fina e as ancas, os seios duros quase rompendo do decote… Aquela beleza limpa do rosto, os cabelos cor de mel.
Aguardava-o no alpendre da casa dos pais. As duas poltronas de vime, com as almofadas no assento. A mesinha. A noite perfumada dos jasmins que se enroscavam no corredor da entrada lateral. Uma escadinha. Ainda ia lá dentro, para avisar aos pais, que ia sair com ele. O pai dela vinha e lhe dizia:
— João, cuidado com minha filha.
— Ora, seu Martinho, nunca acontece nada!
— Pois sim, pois sim, este mundo é cheio de malvadeza, eu é que sei.
Iam dar umas voltas no largo, ao redor do coreto que, nos sábados e domingos, acolhia a banda de música. Depois, o cinema, o escurinho do cinema, quando trocavam beijos e se agarravam.
Na noite fresca, ao saírem, iam tomar um sorvete. Ela preferia de morango, ele, de abacaxi.
— Quarenta e cinco anos, Maria José, como o tempo passa!
— Bem, o que se há de fazer?
Ela se ergueu, suspirando:
— Vou acabar o jantar.
Na mesa posta, comiam em silêncio. A garrafinha de pimenta malagueta, o pão fresco, o bife de coxão mole, o feijão, o arroz, a couve, os tomates. Limpava a boca no guardanapo de linho, isso ele fazia questão. Depois, ajudava-a a retirar os pratos, os talheres, os copos.
— Deixe, João, deixe na pia, que depois eu lavo. Ia sacudir a toalha, na porta.
— João, e aquele negócio?
— Empacou… Mas pode ser que ainda se acerte…
Sentados na varandinha da casa, ele olhou o céu. As estrelas tão miudinhas, piscando, distantes.
— Maria José, você acha que há outros mundos habitáveis?
— Não sei, João, já não basta este?
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

